O sertão já virou mar
Daniely Silva -

. . .Em 1896 hade rebanhos mil correr da praia para o certão; então o certão virará praia e a praia virará certão. (Cunha, 2012, p. 270, in: Profecias [de Antônio Conselheiro])
Cidades e campos afogados são um tema frequente na música e na literatura. A profecia de Antônio Conselheiro inspirou a letra de Sá & Guarabyra sobre a inundação de Sobradinho, a mais extensa represa da Brasil, no Vale do São Francisco. Uma paisagem sertaneja se fez semelhante ao mar.
Ilha do Tesouro em Sobradinho.
O saudosismo de paisagens afogadas se repete pelo Brasil. A jusante de Petrolina, tem-se o distrito de Barreiras, em Petrolândia, onde a Represa Luiz Gonzaga deixa exposta a nave da antiga Igreja Sagrado Coração de Jesus como a ponta de um iceberg. Sob as águas do Paranoá, em Brasília, estão as ruínas da Vila Amaury, assentamento operário dos candangos que construíram o Plano Piloto. Sob Itaipu, jazem as Sete Quedas.
Poucas décadas depois da profecia de Antônio Conselheiro, o então município de Santo Amaro foi mais um sertão que virou mar. Em 1909, era inundado o Lago Velho, a Represa Guarapiranga, e, em 1927, o Lago Novo, a Billings, mais amplo reservatório urbano do país.
Santo Amaro esteve à margem das preocupações centrais da metrópole em formação, longe da cidade e do caminho entre a Serra e o Mar, centrado do Vale do Tamanduateí. Não era um vazio, no entanto. Povos Guarani Mbya ocupavam a região há séculos, onde hoje formam os territórios indígenas Tenondé Porã. O bairro de Colônia, estabelecido ao lado de uma cratera de impacto, tem origem na chegada de imigrantes teutônicos em 1827, no Primeiro Império.
Na direção de Santo Amaro, para além-Pinheiros, dominam uma pequena agricultura e extração da lenha nos Sertões de Embu e Itapecerica. A construção da Guarapiranga (1907) induziu a uma ocupação urbana singular, que se faz a partir da cidade de São Paulo, a longo dessa represa na primeira década deste século. Eram casas de campo e vigilatura. (Seabra, 2015, p. 48)
O sentido de sertão, historicamente, refere-se a territórios remotos ou inóspitos. O uso geral do termo mudou para se referir à área core do Semiárido a partir de obras como Os Sertões (1902), de Euclides da Cunha, e Grande Sertão: Veredas (1956), de Guimarães Rosa. Numa acepção geral, portanto, Santo Amaro se tratava de um sertão a ser avançado pelas transformações da paisagem, assim como foi o sertão do Planalto Central domado para se tornar Brasília.
O município de Santo Amaro foi reincorporado ao de São Paulo em 1935, sob intervenção federal no estado. Uma das justificativas foi, justamente, a existência das novas represas. A formação do bairro de Interlagos, em 1938, sob os preceitos de cidade-jardim, junto a outros loteamentos de luxo, como a Riviera Paulista e o Eldorado, impulsionou a especulação imobiliária em direção ao sul, na nova porção que a cidade ganhou. Nas palavras do interventor federal, o município que virava distrito tornar-se-ia “um dos seus mais attrahentes centros de recreio;” (São Paulo, 1935).
É uma antítese curiosa: o mesmo processo que inundou centenas de quilômetros quadrados, tomando o lugar de zonas rurais, foi o mesmo que se tornou o chamariz da ocupação. Não obstante, a retificação dos rios Pinheiros e Tietê, parte do processo de alteração da geomorfologia local, disponibilizaram terras para a formação de bairros noutros pontos da cidade. Inunda-se e se inutiliza terras, ao passo que se retifica para disponibilizar outras. A engenharia permitiu ao homem domar as águas e os sertões, recolocando o ecúmeno num espaço ilimitado.
Montou-se um sistema hidráulico ultracomplexo, do qual as represas são a coroa de uma rede controlada artificialmente. O sistema exige meticuloso controle de vazões a montante e a jusante, além da necessidade de dragagens regulares. Essa necessidade foi criada pela retificação dos canais, a qual fez com que o rio, ao não dissipar sua energia na dança dos meandros, deposite o excesso de sedimentos na calha. O meandro não existe como um capricho da natureza que precisa sair bem na foto, ele é a forma que o rio tem de dissipar a sua energia em planícies: água mole e pedra dura, tanto bate até que fura, mas se der pra contornar o caminho, ela vai.
O homem suprimiu os meandros na expectativa de controlar as inundações. A antropização reconfigurou os usos da paisagem: a cheia, parte do ciclo, torna-se inundação como problema social a partir do momento em que o ecúmeno se reconfigura na direção das planícies aluviais; o rio, antes presente no cotidiano e no imaginário coletivos, torna-se canal de escoamento de detritos e águas pluviais, de costa para a cidade, ao passo que suas margens se tornam espaço de escoamento econômico. Numa realidade em que os rios foram borrados da paisagem, as represas, além dos usos hídricos e hidráulicos, tornam-se verdadeiros reservatórios de experiências.

Pesca na Ilha do Bororé.

Pescador na Barragem Guarapiranga.

Onde acaba ou começa a Guarapiranga?

É proibido nadar na Guarapiranga.

Deque do Parque Linear Cantinho do Céu.

Deque do Parque Linear Cantinho do Céu.

Parque Linear Cantinho do Céu.

Aquático SP no Corpo Central da Represa Billings.

Atracadouro do Cantinho do Céu.

Melancolia na Guarapiranga.

Serenidade na Guarapiranga.

Silêncio na Guarapiranga.

O vazio da tarde nublada na Guarapiranga.

Contemplação à Barragem Guarapiranga.

A cidade se acende no anoitecer à Guarapiranga.

O som da despedida na Guarapiranga.
CUNHA, Euclides da. Os Sertões. São Paulo: Montecristo, 2012.
SÃO PAULO (Estado). Decreto Nº 6.983, de 22 de fevereiro de 1935. Extingue o municipio de Santo Amaro, cujo territorio passa a fazer parte do municipio da Capital. São Paulo, SP: Diário Oficial do Estado, 1935. Disponível em: < https://www.al.sp.gov.br/repositorio/legislacao/decreto/1935/decreto-6983-22.02.1935.html >. Acesso: 23 mar. 2026.
SEABRA, Odette. Os meandros do rio nos meandros do poder. São Paulo: Alameda, 2019.
