O sertão já virou mar
Daniely Silva -
. . .Em 1896 hade rebanhos mil correr da praia para o certão; então o certão virará praia e a praia virará certão. (Cunha, 2012, p. 270, in: Profecias [de Antônio Conselheiro])
Poucas décadas depois da profecia de Antônio Conselheiro, Santo Amaro foi mais um sertão que virou mar. Em 1909, era inundada a Represa Guarapiranga, e em 1927, a Billings, o maior reservatório urbano do país.
Longe da cidade, e do caminho entre o Serra e o Mar, Santo Amaro esteve à margem das preocupações centrais da metrópole em formação. Não era um vazio, no entanto. Povos Guarani Mbya ocupavam a região há séculos, onde hoje formam os territórios indígenas Tenondé Porã. O bairro de Colônia, estabelecido ao lado de uma cratera de impacto, tem origem na chegada de imigrantes do Império Austríaco em 1827, no Primeiro Império.
O município foi reincorporado ao de São Paulo em 1935, enquanto o estado de São Paulo se encontrava sob intervenção federal. Uma das justificativas foi, justamente, a existência das novas represas. A formação do bairro de Interlagos, em 1938, sob os preceitos de cidade-jardim, junto a outros loteamentos de luxo, como a Riviera Paulista e o Eldorado, impulsionou a especulação imobiliário em direção ao sul da nova porção que a cidade ganhou.
É uma antítese curiosa. O mesmo processo que inundou centenas de quilômetros quadrados, tomando o lugar de zonas rurais, foi o mesmo que se tornou o chamariz da ocupação. Não obstante, a retificação dos rios Pinheiros e Tietê, parte do processo de alteração da geomorfologia local, disponibilizaram terras para a formação de bairros noutros pontos da cidade. Inunda-se e se inutiliza terras, ao passo que se retifica para disponibilizar outras. A engenharia permitiu ao homem domar as águas e os sertões, recolocando o ecúmeno num espaço ilimitado.
CUNHA, Euclides da. Os Sertões. São Paulo: Montecristo, 2012.





