Daniely Silva

Resenha de Saideira (2024)

Retrato em plano fechado de moça sorridente Daniely Silva -
Tempo de leitura: 4 minutos. Resenhas #leituras

  • Direção: Pedro Arantes e Júlio Taubkin;
  • Produção: Juliana Lemes et al;
  • Elenco: Thati Lopes como Joana Caldas; Luciana Paes como Penélope Caldas; Tonico Pereira e Ian Braga como Honório Caldas; Matheu Abreu como Sócrates; Jackson Antunes como Paulão; Rogério Fróes como Seu Jonas.
  • Estreia: 8 de agosto de 2024.

Uma comédia dramática nacional que me surpreendeu. Foi a mala direta semanal de um serviço de streaming quem me fez descobri-la. Fiquei curiosa, mas, como não sou muito fã de comédias, não tinha muita expectativa e assisti despretensiosamente.

Assim como Estômago 2 (2024) foi uma viagem cinematográfica pela culinária brasileira de forma divertida e dramática, mas embasada, Saideira faz algo parecido com o universo da cachaça.

Penélope é uma cachaçóloga natural de Paraty e radicada em São Paulo. O filme começa com sua narração, em que explica sobre a diversidade de cachaças no nosso país: milhares. Destas, algumas se destacam no mercado internacional, mas existe uma lendária, procurada por ela há anos: a Saideira.

Ela volta a Paraty para o funeral do avô, Honório. Se a neta é cachaçóloga conceituada, o avô era cachaceiro de primeira. Como diz o poeta, cachaceiro é quem faz a cachaça; no caso, ele era as duas coisas: fazia e bebia. Dado esse histórico, ela já chega na expectativa de encontrar a sonhada cachaça.

A irmã, Joana, é uma artista pouco estudada e sente a insegurança de estar à sombra de Penélope, quem, por sua vez, é uma intelectual bem-sucedida que se distanciou da família ao término da adolescência. Pouco tempo após o funeral, as irmãs recebem a visita do contador do avô. Como herança, ele deixara às netas a casa, mobiliada com madeira de lei, o clássico automóvel de 1962 e uma caixa com a cachaça Saideira.

A questão é que elas precisam encontrar a cachaça. Numa briga infantil, espalham pelo mar as pistas e as memórias deixadas pelo avô. A carta-testamento termina com a tinta borrada pela água e a lacuna deixada as obriga a começar uma jornada pela Estrada Real. É o MacGuffin narrativo perfeito.

A trajetória que começa em Paraty vai a Tiradentes e acaba parando em São Tomé das Letras, para onde são atraídas pelo charmoso Sócrates. De lá, a próxima parada é em Itabira, a terra de Carlos Drummond de Andrade, de quem a poesia “No meio do caminho” aparece de forma enigmática na carta do avô e noutros diálogos. A crítica à desfiguração da cidade pela mineração aparece na trama e tem relevância narrativa.

A primeira parada da investigação é no boteco do Paulão, em Tiradentes. Lá, cachaças artesanais tinham nomes peculiares e sugestivos, como Dedada, No Rabo, Marido Brocha etc. Após muita bebedeira, o dono consente em ensinar o caminho até o Alambique Sangue Mineiro, para onde uma fotografia do avô, ainda jovem, apontava. Paulão alerta que o lugar, propriedade de Seu Jonas, é perigoso. É lá onde as irmãs conhecem o jovem Sócrates, por quem Joana se encanta e é atraída para São Tomé.

Quando conseguem juntar todas as pistas encontradas em diferentes cidades, as irmãs descobrem que o avô escondia muito mais que a “fórmula” de uma cachaça. Costumamos romantizar a velhice, mas sem imaginar que os idosos já foram jovens e podem ter tomado decisões questionáveis na sua trajetória. O drama vai muito além da cachaça, que se torna apenas o ponto em comum que reuniu duas irmãs separadas pelo tempo e pelas mágoas.

É interessante ver uma introdução ao mundo da cachaça que não chega a ser maçante. Quando os termos técnicos usados por Penélope começam a pesar na dose (com perdão da palavra), é a própria Joana que põe um freio, ao se mostrar entediada. Não é um filme que vai ensinar tudo sobre essa bebida com séculos de história, mas pode despertar a curiosidade.

As denominações de origem protegida também falam sobre o poder cultural de um país. Os franceses têm Champagne, Champignon, Roquefort; os italianos têm Gorgonzolla e Parma; os escoceses e irlandeses o Whisky. Nós temos Canastra e Cachaça. Nenhum lugar do mundo produz cachaça: o que é feito fora do nosso território é só aguardente de cana, uma bebida sem nosso terroir e sem nossa história. Num mundo em que os vinhos se destacam por todo o seu simbolismo cultural e territorial, é positivo que um filme dê valor a uma bebida autenticamente brasileira como um Santo Graal. Isso tudo, é claro, numa narrativa profunda, delicada, comovente e divertida.