Daniely Silva

Resenha de Baviera Tropical (2018), Betina Anton

Retrato em plano fechado de moça sorridente Daniely Silva -
Tempo de leitura: 10 minutos. Resenhas #leituras

A infância da jornalista Betina Anton foi num colégio alemão no distrito de Santo Amaro, na Zona Sul de São Paulo. A região, coincidentemente, teve a primeira colônia germânica do Brasil, ainda no Primeiro Reinado, por intermédio da Imperatriz Leopoldina e sua origem no Império Habsburgo.

Ela se lembra de sua professora ter sumido da noite para o dia, sem explicação, o que foi seguido por um clima de tensão entre os adultos. O motivo ela foi entender mais tarde: a doce professora Tante Liselotte escondera o criminoso de guerra procurado do mundo: o médico nazista Joseph Mengele passara dez anos sob sua proteção, dos dezoito em que passou no Brasil. A professora se preocupou até em enterrá-lo sob nome falso, o de Wolfgang Gerhardt, de quem o nazista usara os documentos quando em vida. Não foi presa, apenas teve que se demitir da escola alemã em meio ao escândalo de repercussão internacional. Ela poderia ter ficado milionária com as recompensas oferecidas em troca dele, mas se orgulhava de nunca ter entregado o “amigo”.

No livro, Betina passa pela trajetória acadêmica de Mengele que o levou a Auschwitz, pelos horrores praticados por ele lá, até chegar aos detalhes de sua fuga e como a história continuou após sua morte, numa busca incansável.

Mesmo para quem tem leitura sobre a Shoah e os horrores da II Guerra, a autora traz cenas acontecidas em Auschwitz-Birkenau capazes de causar pesadelos nos corações mais gelados. Mengele conduziu experimentos piores que qualquer filme de terror pode roteirizar. Sua obsessão eram os gêmeos, tema de seu doutorado antes da guerra. Também abusou, em nome de sua pseudociência, dos ciganos, pessoas com nanismo, com heterocromia, entre outros.

Sua função mais rotineira, no entanto, era a de selecionar quem ia morrer e quem seria escravizado, quando da chegada dos trens que transportavam humanos como gado, vindos de todo lado da Europa ocupada. Outros médicos faziam essa tarefa a contra-gosto, mas Mengele comparecia nos dias de folga, assoviava e exibia seu lúgubre sorriso de dentes separados. Sua resolução para uma mãe e uma filha que não quiseram se separar foi assassinar as duas. Para combater uma epidemia de tifo, exterminou, mais de uma vez todas as mulheres de uma ala, o que lhe rendeu uma condecoração pelos “serviços prestados”.

Esse homem, responsável direto pela morte de dezenas de milhares de pessoas (o número exato é desconhecido), viveu com razoável tranquilidade após a fuga. Por sua sorte, a confusão dos Aliados ao lidar com prisioneiros de guerra do Eixo o permitiu se esconder na Baviera e logo fugiu para a Argentina com passaporte italiano. De lá, quando o cerco dos caçadores de nazistas se fechava, fugiu para o sul do Paraguai e, após a captura de Eichmann, foi para o Brasil, onde esteve em Serra Negra, Caieiras, Itapecerica da Serra e no bairro de Eldorado, em São Paulo.

Parte da sua trajetória de fuga esteve entrelaçada à de Adolf Eichmann, o responsável pela logística do genocídio. Ambos se conectavam ao oficial da Força Aérea nazista Hans-Ulrich Rudel.

Momentito, señor”, foi a frase dita a Eichmann por Rafi Eitan, o agente da Mossad que deu o golpe certeiro para o sequestro. Adolf Eichmann foi levado a Israel em 1960 e enforcado em 1962.

Mengele esteve um passo à frente e se esquivou da justiça até 1979, quando morreu afogado em Bertioga, aos 67 anos. Como o mundo não é justo, a sorte esteve ao seu lado várias vezes.

Durante a Operação Eichmann, a Mossad sabia onde encontrar Mengele. Só que a empreitada secreta já era arriscada o suficiente para esperar mais. Eichmann foi enviado a Israel e o país ficou com uma crise diplomática para lidar.

A notícia feriu o orgulho argentino e as leis internacionais. Como resultado, a Casa Rosada tomou atitudes consideradas enérgicas no universo da diplomacia: convocou seu embaixador em Tel Aviv, levou a questão para o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas e pediu que Eichmann fosse devolvido. […] O Conselho de Segurança ficou ao lado dos argentinos e condenou Israel, pedindo uma reparação apropriada. Foi o suficiente. (ANTON, 2018, pp. 199-200)

O que mais me chocou foi saber que a Argentina, além de acobertar nazistas sem constrangimento (assim como o Paraguai o fez), teve a cara-de-pau de pedir um de volta! Em tempos em que se sequestram presidentes em território soberano, parece-me muito mais moral e justificável sequestrar quem praticou crime contra a Humanidade.

Ainda assim, dois agentes da Mossad ficaram em Buenos Aires para pegar Mengele. Àquela altura, ele já morava no Paraguai, mas voltava à capital argentina com frequência para visitar a esposa e o enteado. Mas ele nunca mais voltou: a divulgação da captura e o início do julgamento de Eichmann foram o alerta para que ele fugisse para o Brasil.

A sorte continuou ao seu favor. Nas redondezas do sítio de seus amigos, em Itapecerica da Serra, só não foi morto porque os agentes israelenses tinham um protocolo a seguir:

A equipe passou cerca de dez dias rodando, até que, de repente, deram de cara com Mengele dentro de um carro. […] Rafi achava que poderia tê-lo matado ali, naquele momento, se quisesse. (ANTON, 2023, p. 206)

Em parte, por responsabilidade de Israel, ele permaneceu impune. A notícia de que o Egito desenvolvera mísseis capazes de alcançar até o sul do Líbano, portanto, todo o território do Estado judeu, pôs o jovem país em pânico. Foi um escândalo interno que a Mossad não soubesse desse desenvolvimento, e todos os esforços foram direcionados à geopolítica no Oriente Médio.

Mengele escapou. Mas não sozinho. Alguns de seus protetores eram abertamente nazistas, mas outros não. Ele e Eichmann não foram os únicos, também ficaram conhecidos os casos de Stangl, no Brasil, e Klaus Barbie, na Bolívia.

«A presença no Brasil de outros criminosos de guerra nazistas e a existência de entidades clandestinas […] são alguns dos pontos principais em que estão sendo orientados os interrogatórios a que responde o austríaco (Franz) Paul Stangl, que se encontra preso em Brasília. […]» (ANTON, 2023, p. 227)

Betina conta sobre a teoria da conspiração sobre a Odessa, uma suposta rede internacional superestruturada que acobertava nazistas. Isso ficou mais crível com as rotas de fuga organizadas pelo polêmico papado de Pio XII. Não obstante, as redes eram organizadas através de relações pessoais, familiares e de amizade, e nada indica que essa organização tenha de fato existido.

Após a descoberta do corpo de Mengele no Cemitério do Embu, muitos duvidaram que aquele fosse mesmo ele, entre caçadores de nazistas e o próprio Estado de Israel.

Apesar de um brasileiro, Oswaldo Aranha, ter sido um dos responsáveis pela fundação de Israel, ambos os países acumulam indelicadezas diplomáticas. No governo Dilma, disseram que o Brasil era um anão diplomático, no governo Lula, comparamos o genocídio em Gaza (gravíssimo!) ao Holocausto, remoendo memórias coletivas. Após a crise diplomática do sequestro de Eichmann, foi a vez do Brasil de ser desconsiderado por Israel: o país duvidou da nossa capacidade de conduzir perícias quando da identificação do corpo de Mengele, mesmo com o acompanhamento de especialistas alemães, americanos e israelenses.

É compreensível que é difícil acreditar que o responsável direto pela morte de milhares do seu povo morreu afogado sem nunca ter ficado cara-a-cara com a justiça.

Em meio ao descrédito às instituições brasileiras, figuras respeitáveis endossavam o negacionismo:

o sobrevivente do Holocausto Ben Abraham, que vivia em São Paulo, não engoliu a notícia: “Mengele é muito inteligente, tão inteligente que me recuso a acreditar que tenha deixado tantas fotos, documentos e outros sinais de sua passagem por aqui, a menos que fosse com o propósito de nos ludibriar. Não acredito que tenha se afogado em Bertioga, a esta hora Mengele deve estar rindo de nós”, afirmou. (ANTON, 2018, p. 318)

Muitos atribuíam capacidades sobre-humanas ao médico nazista, quando, na verdade, tudo aconteceu por uma rede de ajuda e por um pouco de sorte.

Acreditar na verdade dói. O destino é casual, ele nem sempre é justo. Às vezes, ele tem uma ironia mórbida: quem conduziu as investigações post mortem de Mengele foram torturadores da Ditadura Militar brasileira.

O que os colegas alemães talvez não soubessem é que Calandra tinha sido apontado como um torturador do Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi) de São Paulo […]. Em seu passado sombrio, ficou conhecido entre os presos políticos pelo codinome de Ubirajara. (ANTON, 2023, p. 285)

[…] muitas das autoridades que atuaram no caso Mengele tinham participado da perseguição a dissidentes políticos durante a ditadura. Foi o caso de Calandra, apontado como torturador, e do dr. Mello, denunciado décadas mais tarde, por emitir laudo necroscópico fraudulento como médico-legista do IML. Seguindo o Ministério Público Federal, em 1976, o dr. Mello, junto com outro perito, atestou a ausência de sinais de agressão no operário Manoel Fiel Filho. Na verdade, o metalúrgico tinha morrido em resultado de tortura na DOI-Codi de São Paulo. (ANTON, 2018, p. 313)

As dúvidas sobre a veracidade da morte de Mengele se prolongavam e voltaram à professora Tante Liselotte. Todos os envolvidos foram submetidos ao controverso teste do polígrafo, mas ela se recusou por muito tempo.

Ela concordou em fazer o teste do polígrafo, mas impôs um preço aos israelenses: 100 mil dólares. Após uma longa negociação mediada por um advogado, chegaram ao valor de 45 mil. (ANTON, 2018, p. 340)

Quando encontrou os arquivos do Estado de Israel que revelaram essa informação, foi aí que Betina entendeu porque a professora lhe dissera que “rolou muito dinheiro” e que “os judeus” a pressionaram para ficar em silêncio. A própria autora reflete que a professora se orgulhava por nunca ter aceitado recompensas, mas achou justo chantagear os investigadores israelenses em troca de confirmar que Mengele estava morto.

Muitas informações sobre a professora foram para túmulo com ela. Betina a procurou novamente antes da publicação, mas soube que ela morrera pouco depois da primeira conversa, que ela relata no início do livro:

De repente, ela deixou escapar uma confissão meio confusa: “Muitas vezes eles acham que com a idade sai tudo. Não sai. Fica tudo certinho.” Terminou a frase sem explicar o que quis dizer, riu e continuou a falar com aquele sotaque e um português, por vezes, sofrível. “Olha, é assim, nós combinamos, se eu fica quietinho, os judeus deixam-me em paz. Então, eu fiquei quietinho. Porque eu tinha família, eu não fala sobre esse assunto.”, disse. “Mas que judeus falaram isso para a senhora?”, perguntei. Silêncio. “Foi o Menachen Russak. Ele foi o Nazijäger.” (ANTON, 2018, p. 17)

O medo ao qual ela se refere quando diz que tinha família é o que Betina foi entender se tratar de uma interpretação talmúdica sobre uma passagem da Torá que faz referência à vingança por sete gerações. Toda essa fala enigmática assustou a jornalista. Na sua conversa com a professora, a velha sugeria, em tom ameaçador, que ela buscasse outro tema para investigar. A conversa aconteceu no portão da casa, no Brooklin, enquanto uma pessoa misteriosa podia ser vista de costas, sentada o tempo todo numa poltrona. As amigas da autora debochavam do seu medo de uma nonagenária, mas essa mesma idosa foi capaz de enganar o mundo por tantos anos para proteger um dos homens mais perversos da história.

Também recebeu críticas da comunidade teuto-brasileira, da qual faz parte. Segundo os críticos, mostrar como alemães e descendentes acobertaram nazistas reforçaria o estigma contra essa população que já é erroneamente associada à ideologia nefasta. Mas ela não achou isso — e que bom que não desistiu do trabalho! Preconceito e conspiração se combate com pesquisa e conhecimento. A ferida tem que ser “cutucada”, e a quem a carapuça servir, pois que a vista então!

ANTON, Betina. Baviera Tropical. 1ed. São Paulo: Todavia, 2023.