Daniely Silva

Resenha de A Carne (1888), Júlio Ribeiro

Retrato em plano fechado de moça sorridente Daniely Silva -
Tempo de leitura: 5 minutos. Resenhas #leituras

A Carne, romance naturalista de 1888 de Júlio Ribeiro, passa por incontáveis camadas, indo da natureza do desejo à das paisagens. À época, seu lançamento foi um escândalo. Dona Belisária, a esposa do autor, ficou meses sem sair à rua, envergonhada. As qualidades narrativas são questionáveis, ao abusar de explicações científicas e abrir várias subtramas dispensáveis à história final. Para quem não está habituado às descrições exaustivas da época, a leitura pode ficar meio enfadonha. Mas vale a pena ler, sobretudo pelo final impactante, desesperador, com a pitada de pessimismo típico à escola literária naturalista e um contraditório otimismo que surge nesse emaranhado de expectativas.

Júlio Ribeiro era abolicionista, republicano e anticlerical. A partir de 1870, manteve o jornal O Sorocabano, no qual se recusava a publicar anúncios de fugas de escravizados. Apesar de contra a escravidão, seu vocabulário racista comum à época torna a leitura intragável em alguns momentos. Na verdade, terminei o livro com a dúvida se o vocabulário do narrador onisciente reflete, na verdade, uma crítica à elite racista e provinciana daquele contexto.

A trama se passa em 1887, um ano antes da Abolição. Desenvolve-se a partir da morte de Lopes Matoso, o pai de Lenita. Ela, enlutada, resolve passar um tempo na fazenda do coronel Barbosa, por quem seu pai fora apadrinhado. A vida rural alivia suas dores, ao caçar e tomar banho de lagoa. A fazenda se situa numa das últimas franjas da fronteira agrícola da época, com as lavouras de café e cana, nas redondezas de uma vila para além de Rio Claro. Lenita, ao chegar, é informada de que o filho do coronel, Manuel Barbosa, o Manduca, está viajando pelo sertão e voltará em breve. Ela o idealiza a partir do que ouve e fantasia um encontro fabuloso. No entanto, entra em colapso quando o real e o imaginado se chocam: ela o vê pela primeira vez imundo, cabeludo e mal humorado por uma crise de enxaqueca.

Passado o choque inicial, uma amizade genuína se desenvolve, com um quê inicial de ingenuidade, mas que esquenta com o passar das semanas de convívio. Ambos são entusiastas do naturalismo e, contemporâneos ao terremoto causado pela teoria de Darwin e sir Wallace, suas conversas se desenrolam em longas prosas sobre a botânica, a zoologia e a geomorfologia da província de São Paulo — a qual Manduca, em carta, quase deixa escapar chamá-la estado, numa clara inclinação republicana no antepenúltimo ano do Império. É o primeiro romance oitocentista que leio que seja ambientado em São Paulo, já que os demais se passavam no Maranhão, Bahia, Minas e, claro, a Corte.

Quando em viagem de negócios a Santos, Manduca descreve exaustivamente, em carta a Lenita, a paisagem da Baixada Santista, dos Campos de Piratininga e os louros da ferrovia, a qual completava naquele ano duas décadas. Era um tempo de transformação, numa realidade em que as viagens a mula e a cavalo ainda eram rotina, num encontro entre o moderno e o colonial. Lenita se enfada ao ler essa palestra interminável, ao ponto de pular as páginas até chegar à mínima menção ao desejo que arde entre os dois:

Não sinto saudade da nossa convivência, de nossas palestras aí no sítio: a expressão saudade tem poesia de mais e realismo de menos. O que há é necessidade, é fome, é sede da companhia, de quem me faça pensar… da sua companhia. (RIBEIRO, 1996, p. 85)

Ele tem quarenta anos e ela ronda os vinte. Problema nenhum na visão daquele contexto, mas o potencial escândalo é que ele é um homem divorciado, depois de viver uma união efêmera na Europa. Se sucumbir à carne, Lenita ficará “desonrada”, como dizia o vocabulário da época, sob um homem com quem não pode contrair matrimônio, pelas leis do Império — e o Brasil ainda ficou praticamente um século sem um direito pleno ao divórcio.

Júlio grafa a palavra carne em caixa alta por sucessivas vezes, o que se torna cansativo (e cafona). O ponto do naturalismo é mostrar que o homem é um animal, governado, primordialmente, pelos desejos e instintos, mas domado pelas instituições. Manuel Barbosa considera o casamento uma estrutura falida, mas o reconhece como parte da estrutura social que controla homens e mulheres. Lenita observa o sexo bruto dos animais e compara a ele o momento em que os humanos cedem aos desejos em detrimento da razão. O maior dilema das personagens é realizar seus desejos numa sociedade carola que os cerceia o tempo todo. Nesse ponto, o autor dá um destino interessante à mulher, num contexto em que novas formas de vivenciar a sexualidade passam a ser concebíveis — embora não aceitáveis. Lenita se mostra à frente do seu tempo a partir do segundo ato.

Algumas subtramas ficam perdidas no livro, como a longa narração de uma seção noturna num terreiro, guiada por Joaquim Cambinda. O capítulo deixa o gancho para eventos que vão acontecer bem mais adiante, envolvendo os escravizados da fazenda e costurando o conhecimento de Manuel Barbosa sobre a química e a biologia dos envenenamentos, sejam eles de origem sintética ou natural. Anteriormente, ele já salvara Lenita da picada de uma cascavel. O romance poderia passar tranquilamente sem o capítulo sobre o terreiro, mas o autor tem um gosto pela descrição dos fenômenos naturais e antropológicos. Mais que uma simples história sobre amor proibido, o livro tem um quê de ensaio que se propõe a desenhar um retrato da época. É algo como Os Sertões (1902), que fala detalhadamente sobre a meio e o homem antes de partir para seu assunto central que é o da Guerra Chacina de Canudos.

Apesar do tom pedante e certas fraquezas literárias, o romance tem seus méritos. Lê-lo faz o leitor mergulhar numa região pouco retratada pelos clássicos literários do último quartel do século XIX, mas o que o faz mesmo valer a pena é o final surpreendente e claustrofóbico — o compensa na leitura qualquer defeito.

Escrito as 24 de novembro de 2025.

RIBEIRO, Júlio. A Carne. 11ed. Rio de Janeiro: Ediouro, 1996.