Daniely Silva

Resenha de Disgrace (1999), J. M. Coetzee

Retrato em plano fechado de moça sorridente Daniely Silva -
Tempo de leitura: 5 minutos. Resenhas #leituras

Tomei ciência da existência desse livro a partir da resenha da Estante do Justo. O romance começa com um professor recém-divorciado que se habituou a sair com prostitutas. David Lurie leciona poesia na Universidade do Cabo, numa África do Sul pós-Apartheid dos anos 1990.

A prostituta da qual era cliente habitual deixou de atender de repente. Ele tenta procurá-la, mas ela rapidamente o põe em seu lugar: que nunca mais volte a entrar em contato no seu número de telefone pessoal. Frustrado, esse homem de 52 anos pensa ser uma boa ideia se aventurar ao sair com uma aluna de 20 anos. O fato de ela ser maior de idade o faz pensar que está tudo bem. Mas não estava.

Um professor universitário saindo com calouras não é uma novidade hoje, como não era na década de 90 e acredito que nem no século XIX. A atitude moralmente questionável dificilmente resulta em punição, mas não foi essa a realidade de David. A soma de um namorado ciumento (ou ex, pouco sabemos), uma moça vulnerável vai desistir do curso e pais preocupados resulta num escândalo que roda a universidade e chega à imprensa da província. Ele é chamado a depor num inquérito interno e tem o automóvel vandalizado; David assume os seus erros, mas se recusa a fazer uma nota de desculpas nos moldes exigidos. Demitido, tem que lacrar sua casa na Cidade do Cabo e vai morar com a filha em Eastern Cape, numa fazenda nos arredores de Grahamstown.

John Maxwell Coetzee finaliza o primeiro ato em poucas páginas e passa a debulhar camadas delicadas da realidade sul-africana. O autor, assim como as suas personagens, David e a filha, Lucy Lurie, é um sul-africano branco. Filho de pais africâneres, Coetzee falava inglês em casa e passou a falar a língua africâner nos círculos sociais onde cresceu. Hoje, vive na Austrália como cidadão naturalizado do país.

Ranços históricos não desaparecem na canetada de uma nova constituição. O racismo no país se distingue muito daquele praticado no Brasil e nos Estados Unidos da América, nações tão marcadas pelo horror da escravidão e da opressão às populações negras e racializadas. Os americanos também tiveram um Apartheid para chamar de seu, na forma das Leis Jim Crow, sob o mesmo argumento utilizado pelos sul-africanos brancos: a proteção às culturas.

O bispo Desmond Tutu defendeu a África do Sul como uma nação arco-íris, na qual zulus, xhosas, tswana, africânderes, descendentes de indianos, de britânicos, de chineses e tantos outros grupos poderiam formar um novo país, refundado a partir do processo de abertura que culminou nas eleições livres que levaram Nelson Mandela a Pretória.

Não há país na África Subsaariana com tão grande população branca. Embora outras regiões do continente invadidas pelos europeus tenham populações brancas expressivas, foi na África do Sul que surgiu um grupo com identidade, os boêres ou africâneres.

O primeiro europeu a vencer o Cabo das Tormentas foi o português Bartolomeu Dias, o que abriu caminho para a chegada de Vasco da Gama à Ásia em 1498, quando atracou em Calecute. Com a exploração do Sudeste Asiático pelos holandeses, a Companhia Neerlandesa das Índias Orientais fundou a Cidade do Cabo em 1652. Isso abriu caminho para que colonos protestantes ocupassem a região, vindos Holanda, mas também da Alemanha e da França. Posteriormente, espalharam-se pelo que hoje é a África do Sul, Zimbabwe, Botswana, Namíbia e até o sul de Angola, onde permaneceram até a independência do país, em 1975.

A língua adotada foi a africâner, língua germânica derivada do neerlandês seiscentista. Entraram em guerra contra os britânicos duas vezes e com os povos locais por inúmeras. Sob o pretexto de proteger a própria cultura, sentiram-se no direito de segregar as populações nativas em Bantustões durante décadas, restringir o acesso a serviços básicos e proibir relacionamentos entre diferentes etnias. O brutal sistema de separação durou até 1991, mas as primeiras eleições abertas a todas as raças foram só em 1994, ano em que Mandela foi eleito.

A partir desse breve contexto, dá pra ver que o país é um caldeirão de tensões. É nesse caldeirão que Coetzee desenvolve a sua trama. Lucy é aquela que fez o caminho contrário: uma moça da cidade que foi para o campo junto a outros hippies. O que para seu pai era uma aventura juvenil, mostrou-se para ela a verdadeira vocação, permanecendo nas terras mesmo depois que os outros foram embora.

Aquele mundo é estranho para David — estranho e entediante. Ele, um homem da cidade e da academia, de repente se vê sujando as mãos de terra para se ocupar. Falar inglês, italiano, francês e africâner não lhe serve de nada naquele meio, onde mal pode assistir a um jogo de futebol, veiculado em língua xhosa.

Quando parece se acostumar à vida no interior, auxiliando na clínica de cuidado com animais na cidade e participando da rotina na fazenda, uma catástrofe invade a sua vida e a de Lucy. É essa desonra que dá nome ao livro. Passado o trauma inicial, David tenta, de todas as formas, convencer Lucy a deixar a fazenda e ir à Cidade do Cabo ou mesmo a passar um tempo nos Países Baixos. Tudo em vão, Lucy é um exemplo de pessoa que criou raízes naquela terra e está disposta a enfrentar tudo para permanecer ali.

Ninguém é mais o mesmo depois de um grande trauma. Mas o amor a filha faz com que, ao perceber que ela não sairia dali, David enfrente seus fantasmas para tentar começar do zero. Além da desgraça acontecida em Eastern Cape, o escândalo protagonizado por ele na universidade nunca o permitiria voltar à vida de antes. Ele demora a se dar conta que, aos 52 anos, ainda pode modificar sua rotina para recomeçar um novo caminho.

Em meio aos processos enfrentados pelas personagens, Coetzee traz cuidadosamente o racismo ainda vigente no país, onde os brancos ainda são os principais proprietários rurais e urbanos. Tema central também é o da violência contra a mulher, a qual tem contornos específicos num país marcado por tantas tensões. Durante boa parte do livro, David se pergunta sobre a sexualidade da filha e o envolvimento de Petrus, o vizinho que a ajuda na fazenda, em toda a catástrofe que os atinge. Essas dúvidas estimulam a continuar a leitura. As respostas vêm aos poucos e, eventualmente, incompletas. É um livro que traz mais dúvidas que soluções.

Escrito aos 26 de outubro de 2025.