Resenha de Sinfonia da Necrópole (2014)
Daniely Silva -
Tempo de leitura: 3 minutos.
Resenhas
- Direção e roteiro: Juliana Rojas;
- Produção: Max Eluard;
- Elenco: Eduardo Gomes como Deodato; Luciana Paes como Jaqueline;
- Estreia: julho de 2014, no Festival de Paulínia;
- Lançamento nacional: abril de 2016.
Este é um raro caso de um musical que me cativou de primeira, cheguei a vê-lo três vezes — eu que não sou de repetir filmes. Percorre as camadas do medo da morte, da insensibilidade com a memória, uma alegoria da especulação imobiliária e o amor romântico na sua face inalcançável.
O filme é locado nos três cemitérios históricos da cidade de São Paulo: Consolação, Araçá e o Cemitério São Paulo, na Rua Cardeal. São usados para ambientar a necrópole fictícia aonde Deodato vai trabalhar como aprendiz de coveiro assim que chega do interior do estado.
O contrassenso dessa comédia dramática já aparece ao nos depararmos com um funcionário de um cemitério que tem medo dos mortos. É em meio a essa difícil adaptação que chegam novidades de fora.
— Amigo!, não pode entrar de moto aqui, não!
— Eu sou do serviço funerário.
A voz e o rosto delicados, que o capacete revela não se tratar de um motoqueiro, mas de Jaqueline, funcionária da Prefeitura, anunciam a mudança que chega para a rotina do cemitério — e também de Deodato.
O município precisa fazer uma varredura nos jazigos antigos numa porção do cemitério e contatar as famílias. O plano é removê-los e construir um conjunto de gavetas verticais. O problema é que muitas famílias não são localizadas e o destino dos restos mortais correspondentes se torna uma questão.
Não toque no nosso túmulo
Ousar mexer no repouso
De quem já foi sepultado
É errado
(trecho da canção lúgubre cantada pelos mortos no melhor estilo de Thriller)
Assustado, Deodato é tomado por uma revolta em defesa dos ossos esquecidos. Sua mente é assolada por visões no limiar entre o delírio e o sobrenatural, enquanto que seu corpo é atingido por estranhos desmaios.
A substituição de jazigos por covas verticais pode ser interpretada como uma alegoria para o processo imobiliário que remove famílias esquecidas para empilhar outras novas na renovação urbana e na verticalização em cima de memórias demolidas. Mas nem é preciso analogia, porque algo semelhante tem sido prometido para as necrópoles municipais, desde que, entre 2022 e 2023, foram concedidas à iniciativa privada, num vislumbre de requalificação desses locais de história abandonada. É o que se supôs para os cemitérios da Lapa, Perus, Quarta Parada, Cachoeirinha, os três centrais que dão cenário para a filme, e entre tantos outros que continuam assolados pelo furto aos mortos e roubo aos vivos, profanação, má zeladoria e esquecimento.
— Esse é o Deodato, aprendiz de coveiro. Ele é seu assistente.
— Sei.
— Ele é seu assistente.
— Eu trabalho sozinha, deve ter algum engano.
É nesse cenário lúgubre que Deodato e Jaqueline desenvolvem um estranhamento inicial e discordâncias no trabalho que ameaçam ferver em paixão. É por essas e outras que onde se ganha o pão não se come a carne, sobretudo se for carne de cemitério!
Escrito aos 29 de setembro do 2025.
