Quebrando a cabeça com Dvorak
Daniely Silva -
Tempo de leitura: 5 minutos.
Resenhas

Já conhecia o leiaute de teclado Dvorak, mas ainda não tinha procurado saber mais sobre. Resumindo um pouco, se trata de um teclado voltado para a eficiência e menor necessidade de movimentar os dedos. Se voltarmos no tempo, as primeiras máquinas de escrever seguiam a ordem alfabética, o que resultava que os tipos se enroscavam o tempo todo. Em 1868, Christopher Sholes vendeu a patente de máquina de escrever à Remington com o padrão Qwerty, no qual afastou as letras mais usadas da língua inglesa para evitar os enroscos. Ou seja, diferente do que muitos acreditam, o leiaute dominante não foi desenvolvido para que teclassem devagar; mas, em todo caso, o padrão foi pensado quase que de forma aleatória.
Aí é que em 1932, o psicólogo americano prof. August Dvorak, primo do compositor tcheco Antonín Dvorak, propõe o leiaute mais racional e eficiente. Dizem que até 70% das palavras da língua inglesa podem ser escritas a partir da linha central do teclado. As vogais ficam todas ao alcance da mão esquerda, a qual também se ocupa da pontuação, esticando os dedos para frente. A mão direita predomina, considerando que a maioria da população é destra, e os dedos mais fortes devem se esticar com mais frequência para alcançar as consoantes mais usadas.
Mas já era tarde: o Qwerty já dominava há décadas e as escolas de datilografia, fabricantes e datilógrafos não estavam dispostos a mudar. O prof. Dvorak morreu amargurado, dizendo que desistia de fazer algo pela humanidade, porque ninguém aceita mudanças!, segundo ele.
Guardadas as devidas proporções, o Dvorak me lembrou muito o Esperanto. A gente continua usando a língua franca predominante não por ser mais eficiente, mas porque é o padrão de mercado ao qual todo mundo se habituou e não quer mudar. E coincidentemente ou não, tanto a língua internacional quanto o teclado eficiente pegaram o nome do seu criador.
Minha curiosidade sobre o Dvorak se acendeu ao ler a história em quadrinhos The Dvorak Zine e a publicação do blogue Ideias de Chirico, de onde também me saiu a ideia de fazer anotações por voz.
A verdade é que não há um consenso dos benefícios de mudar de leiaute. Os maiores indícios são que o aprendizado é mais rápido em iniciantes e que a recordista do Guiness a atingir 212 palavras por minuto, Barbara Blackburn, usava um teclado Dvorak desde 1938.
Não foi por mais velocidade que resolvi aprender o leiaute. Também nunca tive dor ou exaustão ao digitar. Não tem bem um porquê. Falta do que fazer, com certeza, não se aplica a mim, porque nunca me faltam afazeres.
Eu já estava numa zona de conforto. Tenho digitação eficiente, a chamada touchtyping, desde os 8 anos de idade, quando fiz um curso junto ao meu tio no antigo Telecentro, programa de inclusão e alfabetização digital da prefeitura de São Paulo.
Um pouco de ousadia fez parte dessa vontade. Outra parte é o tesão por padrões racionais, assim como o Esperanto me cativou em algum momento. Foi curioso reviver as etapas de digitar sem olhar só que, desta vez, já conhecendo um outro padrão em vez de aprender do zero. Na verdade, é uma pane no cérebro, o que me fez refletir muito sobre memória muscular.
Reeducar movimentos é um caos. Passei por isso anos atrás ao corrigir a pegada ao segurar a caneta. Meu grip era absurdo demais para não ter sido corrigido na alfabetização e persistido a vida inteira; o lápis até se partia na minha mão! Mas percebi que, apesar de difícil, era mais fácil fazer essa mudança aos 25 que aos 50 anos. Mudar hábitos é desafiador, mas muito satisfatório: preenche o espírito.
A primeira semana de Dvorak, descobrindo-o pelo curso de Justin Chang, foi de puro estranhamento. Meus dedos teimavam o tempo todo que aquela tecla era a sua equivalente do Qwerty. Colei uma cópia impressa do Dvorak adaptado ao português brasileiro, a qual me serviu de cola até decorar o leiaute. Tem gente que opta por trocar as teclas ou colar etiquetas sobre as teclas, mas isso não era viável para mim, porque já tenho o teclado na cabeça.
Quase terminando o curso de Justin Chang, fiz uma viagem de duas semanas e fiquei sem praticar. Ao voltar, fiquei surpresa ao ver que meus dedos não haviam se esquecido do que aprendi. Daí em diante, continuei fazendo um exercício por dia e criei meu último trabalho da pós-graduação.
Foi aí que veio a fase caótica. Entrei em pânico ao ver que ainda não conseguia digitar bem em Dvorak e meus dedos estavam rejeitando o Qwerty. Mas passou, para minha surpresa. Escrevi todo este texto em Dvorak e, na data de hoje, consigo atingir cerca de 36 palavras por minuto no Dvorak e 74 no Qwerty.
É engraçado como e cérebro leva alguns segundos para virar a chave quando faço a troca de forma imediata, o que difere de mudar o leiaute com algumas horas de diferença. Também percebi que existe uma diferença entre copiar e criar o texto na hora: é como se a segunda opção gerasse uma sobrecarga no cérebro e os conflitos aparecessem mais. O uso dos atalhos também é esquisito, mas há que se considerar que os atalhos foram pensados para o Qwerty e o Dvorak surgiu séculos antes dos computadores pessoais. Até há outros leiautes mais adequados às necessidades contemporânea, mas vou confessar que toda quebra de padrão também envolve o apego a um padrão: o Dvorak é estandarizado internacionalmente, vem embutido em qualquer sistema operacional e é rico em história. Como no caso do Esperanto, outras línguas planejadas vieram depois para se propor mais eficientes, mas não quer dizer que vamos trocar um pelo outro.
Não posso abandonar o Qwerty porque, além de não querer “catar milho” ao usar um computador alheio, não posso perder a capacidade de datilografar na minha Olivetti Lettera 22, tampouco no meu celular Android, onde a proposta do Dvorak não faz sentido. Com o tempo, vou ter a resposta da minha grande dúvida: dominar um leiaute vai diminuir minha capacidade no outro?
“We need to develop a habit of changing habits.” — Avi Rzayev, Switching to another typing layout: What it has to do with our habits?

