Daniely Silva

Mulheres no desenho urbano de São Paulo

Retrato em plano fechado de moça sorridente Daniely Silva -
Tempo de leitura: 5 minutos. Ensaios #cidade #fotografia

Numa cidade carente de símbolos e marcos, são duas mulheres que deixaram na paisagem urbana dois elementos que não passam despercebidos: o orelhão e a calçada paulista.

Os orelhões, originalmente nomeado Tulipas, foram desenhados pela arquiteta brasileira de origem chinesa Chu Ming Silveira, inspirada pelo formato do ovo. Chegaram às ruas brasileiras em 1972, com um formato adequado ao nosso clima e uma acústica favorável. Cabines fechadas como as londrinas rapidamente viram estufas sob o Sol tropical e abrasador. Nosso ícone, colorido como o Brasil, foi exportado a outros países do Sul Global, como a Angola, Moçambique, e a alguns de nossos vizinhos na América do Sul 1. Foram especialmente importantes num momento em que telefones de rua eram raros no Brasil, estando o serviço limitado ao interior de farmácias, postos de combustível e botecos.

Usei orelhão ao longo da minha vida esporadicamente, principalmente na adolescência e, quase sempre, por chamadas a cobrar. Planos de operadoras eram caros para uma família humilde, à época. Também fiquei sem telefone celular por alguns períodos da fase adulta, então, encontrar um orelhão funcional era útil.

Outra relação com o orelhão eram as ligações à minha avó. Hoje, Bezerros é uma cidade pujante com mais de 60 mil habitantes, onde, recentemente, a nova Adutora do Agreste resolveu o problema crônico de falta d’água enfrentado pela cidade. Mas, à época, o único contato com o mundo na rua em que meus familiares moram era o orelhão. Hoje, a rua está transformada: as construções, antes recuadas, avançaram quase ao limite da rua, para aproveitamento total do lote. E o orelhão não está mais lá.

A partir de 2026, os orelhões passam a ser removidos gradualmente, até 2028 2. Serão mantidos apenas onde não há outras formas de telecomunicação disponível. Ao longo desses mais de 50 anos de existência, surgiram algumas propostas de atualização, mas todas falharam. É compreensível a mudança na tecnologia, mas como elemento icônico da paisagem eu me questiono se remover todos é a solução mais sensata. Nova Iorque também removeu suas cabines telefônicas remanescentes em 2022, substituindo-as por quiosques com internete sem fio gratuita e pontos de recarga para eletrônicos 3. Londres, por outro lado, manteve algumas de suas icônicas cabines vermelhas, ressignificando o uso para pontos de leitura, abrigo para pessoas em situação de rua e telefones de emergência em estradas 4. Nem todos esses usos se aplicam ao formato do nosso orelhão (talvez o ponto de leitura, como já ocorre em estações de transporte público?). Mantê-los em centros históricos e regiões turísticas pode ser razoável.

Se o orelhão foi, por décadas, o principal meio de comunicação em milhares de municípios brasileiros, hoje foram esquecidos, num momento em que se propõe constelações de satélites que cubram com sinal de internete móvel os rincões mais isolados do planeta. Um meio de contato coletivo é substituído pelo acesso universal e privado (digo-o, aqui, sem juízo de valor). Vivemos a hiperdigitalização, num mundo onde a comunicação nunca foi tão complicada como no auge da telecomunicação.

Calçada com polígono monocromático na forma do mapa do estado de São Paulo.

O colorido do Orelhão, junto ao seu formato extravagante, combina com um outro elemento da paisagem, mas, este outro, monocromático: o mosaico paulista, composto por um polígono análogo ao mapa do estado. É uma ideia simples e barata, bastando três tipos de ladrilho: um preto, um branco, e um bicolor dividido na diagonal. Sua autoria é da artista e pedagoga brasileira, natural de Barretos, Mirthes Bernardes.

O prefeito Faria Lima (1965-69) fizera um concurso para criar um elemento icônico para São Paulo, como é a calçada de Copacabana para o Rio e as colunas de Niemeyer para Brasília. Mirthes foi estimulada pelo patrão a enviar o projeto, o qual engavetara, sem a pretensão de concorrer. Foi uma surpresa quando viu o seu desenho no jornal, contudo, ela não foi reconhecida e tampouco compensada financeiramente pelo uso de sua ideia. Os jornais sequer a mencionaram, enquanto o memorando da prefeitura citava apenas a autoria de uma “funcionária da Prefeitura”5.

Nos últimos projetos públicos de repavimentação, o mosaico tem sido abandonado. Na revitalização da Rua Augusta (2006, gestão Kassab)6 foi usado o paver; como parte da Operação Urbana Faria Lima, a repavimentação do Largo da Batata e arredores (idealizado em 2001, na gestão Marta Suplicty (PT), contratado na gestão Kassab (PFL) e executado na gestão Haddad (PT), em 2013)7, optou por placas pré-moldadas diversas; no Novo Anhangabaú, São João e Triângulo Histórico (projetos da gestão Haddad (PT) executados em Covas-Nunes), a escolha foi pelo concreto moldado in loco, após vários testes de materiais.

Não é que seja contra opções mais duráveis, acessíveis e de baixo custo. O mosaico paulista tem a execução levemente complexa, mas nem se compara à calçada portuguesa, que depende de mão de obra especializada e exige manutenção meticulosa, com pouca acessibilidade.

O desenho de autoria de Mirthes Bernandes tem um baixo custo para a personalidade que carrega. Pouco a pouco, ele vai sumindo, ficando apenas o legado de execuções anteriores. Enquanto isso, os orelhões de Chu Ming Silveira ainda sobrevivem graças ao seu próprio esquecimento: quem se lembrará de removê-los?


  1. Orelhão: Ícone do design. Disponível em: < https://www.orelhao.arq.br/ >. Acesso: 13 fev. 2026. ↩︎

  2. JERONYMO, Guilherme. Orelhões serão extintos no Brasil até o fim de 2028. São Paulo: Agência Brasil, 20 jan. 2026. Disponível em: < https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2026-01/orelhoes-serao-extintos-no-brasil-ate-o-fim-de-2028 >. Acesso: 12 fev. 2026. ↩︎

  3. ROSEN, Mix. A nostalgic ode to New York’s lost age of public Pay Phones. Londres: Another Mag, 30 abr. 2025. Disponível em: < https://www.anothermag.com/art-photography/16354/daniel-weiss-pay-phone-photo-book-new-york >. Acesso: 22 fev. 2026. ↩︎

  4. MOSS, Stephen. Ringing the changes: how Britain’s red phone boxes are being given new life. London: The Guardian, 27 ago. 2019. Disponível: < https://www.theguardian.com/technology/2019/aug/27/ringing-the-changes-how-britains-red-phone-boxes-are-being-given-new-life >. Acesso: 21 fev. 2026. ↩︎

  5. FERREIRA, Ivanir. Calçamento Paulista: ícone urbano teve reconhecimento de autoria inviabilizado. São Paulo: Jornal USP, 12 jan. 2026. Disponível em: < https://jornal.usp.br/ciencias/calcamento-paulista-icone-urbano-teve-reconhecimento-de-autoria-inviabilizado/ > Acesso: 16 fev. 2026. ↩︎

  6. REPORTAGEM LOCAL. Calçada nova da Rua Augusta já terá que sofrer reparos. São Paulo: Folha de S. Paulo, 9 nov. 2006. Disponível em: < https://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff0911200624.htm >. Acesso: 16/02/2026 ↩︎

  7. BERGAMIM JR., Giba. Após dez anos, obra do largo da Batata fica só para 2013. São Paulo: Folha de S. Paulo, 26 ago. 2012. Disponível em: < https://www1.folha.uol.com.br./cotidiano/2012/08/1143249-apos-dez-anos-obra-do-largo-da-batata-fica-so-para-2013.shtml?mobile >. Acesso: 16 fev. 2026. ↩︎