Imitações vulgares
Daniely Silva -
Tempo de leitura: 5 minutos.
Ensaios
Tudo é feito de plástico. Estamos rodeados de imitações vulgares. Vulgares e plásticas. O plástico já está na placenta e até no cérebro.
O plástico é um termo genérico para cadeias sintéticas de polímero que têm por base o petróleo. O que é um polímero? De forma resumida, um conjunto repetitivo de macromoléculas que se arranjam para formar uma estrutura. O látex e a celulose são polímeros naturais. A depender do arranjo molecular, o “plástico” pode assumir a forma do Polietileno (PE), Polipropileno (PP), o “isopor” ou Poliestireno (PS, conhecido por “isopor”), Policloreto de Vinila (PVC), Polietileno Tereftalato (PET) e o Poliuretano (PU), por exemplo.
O plástico é assim chamado por ser algo moldável e com plasticidade. Não é exagero dizer, portanto, que comemos plástico.
Comemos comida de laboratório: em cima de um conservante, vai um corante para tirar a cor estranha; em seguida, um aromatizante para tirar o sabor do anterior; e assim vai a reação em cadeia de emulsificantes, outros aditivos e uma quantidade hedionda de açúcar e sódio adicionados para disfarçar a rude imitação de ingredientes de nomes complicados.
Ultraprocessados podem ser uma categoria ampla demais, por botar num mesmo balaio um conjunto de produtos de variadas qualidades nutricionais. Em todo caso, a classificação nos faz pensar duas vezes entre consumir aquele alimento e se atentar à lista de ingredientes e ao valor nutricional. Por consequência, priorizar os alimentos in natura e os processados (um pão francês ou um cuscuz).
O processamento simples, aquele milenar, que pode ser feito ate mesmo em casa, foi essencial para as sociedades ao longo da história humana. O ultraprocessado, por outro lado, é um produto da modernidade industrial. É uma realidade do período técnico-científico-informacional, a etapa atual da modernidade.
Num mundo em que as pessoas têm menos tempo e pouco ficam em casa, o ultraprocessado aparece como o cavalo de Troia perfeito. Nesse sentido, há um aspecto ainda mais perverso que o da saúde: ele é um triturador de culturas.
Recentemente, viajei à cidade de minha mãe. Nada de carne de bode e sarapatel, porque o que se reserva para um dia especial, de uns anos pra cá, é pizza, hambúrguer e sushi. É a comida do cidadão cosmopolita que chega a todos os cantos do país. Embora os três casos que mencionei não sejam, necessariamente, ultraprocessados, compõem um mesmo processo de homogeneização gastronômica a nível global. São processadores de cultura.
Não raro, em matérias que tratam do risco da comida ultraprocessada, aparece alguém para comentar que o risco maior é passar fome. Isso é um reducionismo assombroso que ignora que a principal vítima de alimentos nutricionalmente empobrecidos é a população pobre. Produtos ultraprocessados também são causa de desnutrição e mal podem ser chamados alimentos.
Esse mercado não existe se não estiver associado a uma publicidade agressiva. Vide a família margarina!, e também o jovem bonito e sarado bebendo Coca Cola. São sabores fáceis que viciam o paladar desde a infância, frequentemente. É a chamada hiperpalatabilidade, a característica que os transforma numa categoria que penetra o espírito e o corrói por dentro.
Marketing, baixa qualidade e alta rotatividade criam a fórmula perfeita para uma indústria inescrupulosa. Não é só o que comemos: é também o que vestimos. Desde a metade do século, cada vez mais, deixamos de vestir tecidos. Da moda de luxo, passando pela fast fashion da “taxa das blusinhas” e chegando até a roupa do camelô, nós vestimos plástico.
Só que, para além de um problema ambiental, o dos resíduos, do microplástico e das emissões da indústria fóssil, há outros aspectos envolvidos, tão delicados quanto. São roupas que, no geral, não têm conforto térmico algum para o nosso clima. Tecidos que nada mais são que meras imitações vulgares: “lã” acrílica, “couro” PU e as várias mimetizações da ancestral seda. As principais delas são o poliéster (PES), a poliamida (PA), o acrílico (PAC), o polipropileno (PP) e o poliuretano elastomérico (PUR).
No Brasil, a lei federal 4888/1965 ainda protege o couro: nada que não venha da pele de um animal pode ser comercializado por esse nome, posto que as imitações devem deixar evidente a sua natureza. Mas isso não constrange quem vende o famigerado couro PU (poliuretano).
Alguns diriam que os tecidos de plástico “democratizaram” a moda. Mas, como nos alimentos ultraprocessados, o custo é uma queda dramática na qualidade.
Em todo caso, as imitações tomaram o mercado em todas as faixas de renda, ao ponto em que não se encontram facilmente roupas de lã e seda. Mesmo lojas especializadas em fibras naturais também fazem amplo uso do sintético. A porcentagem da lã no mercado mundial não é maior que um dígito. No Brasil, quase toda nossa lã vai para o Uruguai, de onde é exportada para o mundo todo e adentra de novo o nosso país via importação. A roupa de fibras naturais se tornou o nicho do nicho.
Tecidos sintéticos não são um problema só ao final da sua vida útil, já que, durante as lavagens, liberam o plástico de sua composição na água, os quais passam direto pelo sistema de tratamento (quando existente). Quando as roupas não prestam mais, dificilmente têm o destino correto e vão para o ciclo do lixo. A depender da combinação de fibras, torna-se inviável reaproveitar. A indústria da moda mal cuida dos seus resíduos e ainda se propõe a absorver os da indústria alimentícia, ao fazer roupas de PET reciclado.
Indústria alimentícia esta que, por sua vez, tem a culpa no cartório de abusar de recipientes de plástico devido ao baixo custo desse tipo de embalagem descartável. Vidros, alumínios e aços podem ser opções, a depender do tipo de alimento condicionado, como o foram por séculos, mas, devido ao custo, são minoritários. Até mesmo a comida de verdade está condicionada em embalagens plásticas, ao que se seguem dois problemas: o resíduo e a ingestão de microplásticos por tabela.
O problema global dos plásticos é empurrado com a barriga (ou para a barriga?). Em suma, nós vestimos plástico, comemos plástico e ainda levamos tudo isso para casa embalado em mais uma ou várias camadas de plástico.
Boicotes e seletividade no consumo não têm um impacto real, por mais que aqueçam o coração e aliviem a culpa individual; infelizmente, o remédio é mais amargo: regulamentação estatal, por mais que os ultraliberais rechacem essa opção.
