Olhando pra dentro do Brasil
Daniely Silva -
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Ensaios
E por mim confesso que tinha o maior acanhamento em mostrar o sertão na quadra seca ao pessoal da Bahia para baixo. Só depois que conheci a nudez do outono e inverno em outros latitudes foi que perdi a cerimônia. Esse negócio de mata tropical, permanentemente verde úmida, é coisa de subdesenvolvido, que não conhece as alternativas das estações; para eles é sempre uma coisa só. Mas nas terras civilizadas da Europa e Norte-América, o ritmo é no tempo certo, e ninguém na Alemanha ou na Escócia se lembraria de ter vergonha de mostrar aos de fora a nudez das árvores ou a grama queimada e morta. Aliás, foi só isso que vi nos famosos campos da Inglaterra — os relvados secos, o arvoredo nu. (Trecho da crônica “Verão”, Rachel de Queiroz, 7/jul./1971)
Rachel de Queiroz falava sobre a vergonha que tinha ao levar seus amigos da zona da mata ao seu sítio em Quixeramobim, no sertão do Ceará. Fala sobre como o Verão sertanejo assusta os visitantes, mas frisa que Verão não é sinônimo de seca: é mera sazonalidade, onde a terra e o homem descansam para que venham as flores do Inverno, i.e., o período chuvoso no dizer popular do semi-árido. Seca, diz Rachel, é outra coisa: é a tragédia, a quebra na sazonalidade ao que a chuva esperada não vem, ao chegar abril e não veio o Inverno.
Pego esse trecho para mostrar que, por mais que tenhamos a impressão de que a maior diferença existente no Brasil está entre as cinco regiões, na verdade existe uma separação mais dramática: a que se instala entre litoral e interior.
O litoral, naturalmente, foi o primeiro contato dos colonizadores com estas terras, por onde também se estendia toda a variedade da grande nação Tupi. Os povos nativos do interior do país eram chamados Tapuia, os outros, os bárbaros. O interiores também foram chamados na forma genérica de sertões, não como sinônimo de seca, mas de área desconhecida. Desconhecida pelos ibéricos, é claro, já que os povos originários tinham estradas que conectavam todos os cantos, vide o Peabiru, que ligou São Paulo ao Peru inca.
Nossas principais cidades se desenvolveram no domínio dos Mares de Morros Florestados, recorte paisagístico desenhado pelo geógrafo prof. Aziz Nacib Ab’Saber. É nessa faixa onde a serra beija o mar. Bênção ou maldição, essa zona impõe graves desafios à infraestrutura: há deslizamentos de terra no Verão chuvoso e o relevo acidentado dificulta a construção de estradas e, principalmente, ferrovias. Cito nossa vizinha Argentina que foi abençoada por um relevo plano nas regiões mais habitadas do país. Nascemos como uma autêntica nação serra-mar.
São Paulo e Curitiba são cidades que se construíram sobre o paredão que são as escarpas da Serra do Mar. Tiveram que dobrar a serra num esforço hercúleo de engenharia para se conectar ao mar. O que interesses econômicos não são capazes de fazer?
Apesar dos esforços pontuais, o Brasil funcionou, durante um bom tempo, como um imenso arquipélago latitudinal. Nas obras de Aluísio Azevedo, o autor sempre faz referência aos vapores que partiam do Maranhão para a Corte, o Rio de Janeiro. As cidades não se integravam por terra e, mesmo com o advento das ferrovias, estas funcionavam primordialmente como uma rede de rios: confluíam o produto de exportação para o litoral. As ferrovias, construídas para ciclos econômicos em regiões e tempos específicos, pouco a pouco foram se degradando ainda mais, visto que já nasceram velhas e despadronizadas. É um tremendo esforço revitalizá-las, reconstruí-las e reintegrá-las! Vide a Transnordestina e a Ferrovia Norte-Sul.
Portanto, o Brasil deu as costas ao seu interior por séculos. Isso muda sensivelmente com a construção da cidade de Brasília, a grande sertanizadora. O Brasil se reestrutura rodoviariamente em torno da nova cidade. Pouco a pouco, o Brasil começa um movimento centrípeto em que o interior ganha cada vez mais relevância. É cedo para dizer que o Brasil litorâneo está em decadência?
No Censo IBGE 2022 (atrasado dois anos), cidades litorâneas importantíssimas historicamente “encolheram”: Salvador, Olinda, Recife, Belém, Natal, Porto Alegre, BH, Rio de Janeiro e Fortaleza; São Paulo não encolheu mas teve crescimento populacional desprezível, assim como Curitiba. São nove capitais litorâneas ou intimamente ligadas ao litoral, seja Porto Alegre que indiretamente se conecta ao mar pelo Guaíba e a Lagoa dos Patos, ou São Paulo e Curitiba que se tornaram cidades costeiras ao dobrar a Serra do Mar; a exceção é BH, que depende centenária ferrovia Vitória-Minas para se conectar ao mar. No caso de Salvador, Natal, Belém e Porto Alegre a queda foi de mais de 5%.
Enquanto isso, Manaus, Campo Grande e João Pessoa cresceram mais de 14%; Goiânia, mais de 10%; Brasília e Boa Vista, mais de 9%; Teresina e Campinas, mais de 5%. A única capital litorânea nessa relação é João Pessoa. Outra litorânea com um crescimento específico é Balneário Camboriú, a qual cresceu incríveis 28,74%. Cabe mencionar que essas cidades costeiras, especialmente a catarinense, têm um papel importante para imóveis de veraneio, estes sim, ocupados por endinheirados (às vezes, nem tanto) provenientes dos interiores do país.
Não há conclusão definitiva que explique tudo isso, mas estou aqui para dar meu palpite de humilde geógrafa: o litoral e o Brasil tradicional estão perdendo o seu protagonismo. Um Brasil católico, sincrético, liberal, da Bossa-Nova, urbano e serra-mar gradualmente dá lugar a um Brasil protestante, neopentecostal, do planalto, de música sertaneja e intimamente ligado ao agronegócio. Certo, citei vários arquétipos e caricaturas, mas isto é uma crônica, não um artigo científico! E esses arquétipos se baseiam em dados, desde um aumento no conservadorismo da população jovem como acelerada substituição do catolicismo pelo protestantismo. E não me deixem mentir ao lembrar o peso do agro na balança comercial do nosso país.
Nesse processo, volto à virada para a segunda metade do século passado. O grande marco da fronteira agrícola foi mudança da capital do país, mas desde a ditadura de Getúlio Vargas já havia um desespero por ocupar o interior. Foi impulsionada a Marcha para o Oeste, política do Estado Novo responsável por ocupar o norte paranaense, o Centro-Oeste (à época, o Mato Grosso era um estado só, desmembrado apenas em 1977, sob o ditador Ernesto Geisel) e áreas da Amazônia. Brasília não foi um caso único: Goiânia é planejada e construída em 1942, assim como Maringá em 1947 e Palmas em 1970.
Os milicos golpistas elevaram a outro patamar a ansiedade por ocupar o território. Sob o lema de Integrar para não entregar, cortaram o Centro-Oeste com a BR-163 e a Amazônia com a Rodovia Transamazônica (BR-230). Deixaram como herança também a Zona Franca de Manaus, com seus sucessos e dessucessos.
E ainda mandaram uma leva de gaúchos, catarinenses e paranaenses para o meio da Amazônia, especialmente ao norte do estado do Mato Grosso. Longe de ser uma migração espontânea e pacífica, gerou conflitos sangrentos, como já ocorrera entre as empreitadas borracheiras e os indígenas. Nos ciclos da borracha, a Amazônia era fatal até para os próprios seringueiros, homens pobres provenientes em grande parte do Semi-Árido, que morriam de malária, febre amarela e dengue; mas, em 1963, o Massacre do Paralelo 11, a mando de um “barão” da Borracha, envenenou e matou mais de 3 mil indígenas do povo Cinta-Larga.
Não é à toa que as cidades ao longo da BR-163 têm nomes excêntricos como Sinop: essa cidade de mais de 200 mil habitantes no norte do Mato Grosso leva o nome da Colonizadora Sinop S.A., um acrônimo para a Sociedade Imobiliária Noroeste do Paraná. Paraná e Mato Grosso? Pois é, na década de 1970, ela levava colonos do norte do Paraná, uma região onde houvera estímulo ao povoamento décadas antes, para essa porção da Amazônia.
Essas empreitadas envolviam, portanto, empresas privadas, o Incra e, de indiretamente, a Empraba. Nesse contexto, o papel sertanizador da construção da cidade de Brasília é mais simbólico que efetivo, dado que a cidade candanga estava inserida num movimento que vinha de décadas. Deveras, é louco pensar como foi ousado levar toda a administração pública para o interior do país, num local sem acesso e sem infraestrutura. Até hoje essa transferência está incompleta, pois muitos órgãos ainda estão no Rio de Janeiro. É dramático ver as imagens da construção de Brasília: obras suntuosas, uma legião de operários, o presidente da república no meio de todo mundo e aquele planalto interminável ao fundo. Pode-se fazer mil críticas à construção de Brasília, mas não dá pra negar que a cidade é um espetáculo visual (nem tanto ao caminhar, mas aí é outra história) e que representa um momento de pujança do país: a Bossa-Nova, a Copa de 1958, o presidente sorriso e, é claro, a nova capital. Isso tudo para em seguida mergulhar numa das piores ditaduras que este país já viveu.
Em todo o caso, a interiorização do Brasil passa pela expansão da fronteira agrícola. O Brasil vive no eterno dilema da política industrial e, entre um plano Safra e outro, a imprensa apoia a ideia de que o agro é top, agro é tech, agro é tudo.
Gostando ou não do agronegócio brasileiro, é ele quem pesa para parte importante da nossa balança comercial. Ese agro, principal motor da economia do Brasil central, envolve grandes difusores da cultura atual e nas últimas décadas. O Brasil vive um momento de transição. Pode ser que ao final deste século, se ainda houver civilização moderna, nós tenhamos outra cara, uma bem diferente daquela que conhecemos nas novelas da Globo. Tomando à frente ou não, o interior do nosso país vai ter a cada ano mais protagonismo e, no amor ou na dor, vamos precisar lidar com isso.
Porque, afinal, toda a essa gente vai descer lá pra BC no finalzinho do ano.
BIMBATI, Ana Paula; FERREIRA, Lola; MADEIRO, Carlos. Censo 2022 mostra inédita queda de população em 8 capitais; veja lista. Rio de Janeiro: Uol, 28 jun. 2023. Disponível em: < https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2023/06/28/crescimento-media-cidades-ibge.htm >. Acesso: 18 maio 2025.
HOLLANDA, Heloisa Buarque de. Rachel de Queiroz: Coleção Melhores Crônicas. São Paulo: Global, 2004.
RODRIGUES, Leo. Censo 2022: o que explica a queda populacional em diferentes capitais. Brasília: Agência brasil, 02 jul. 2023. Disponível em: < https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2023-07/censo-2022-o-que-explica-queda-populacional-em-diferentes-capitais >. Acesso: 18 maio 2025.
