Daniely Silva

15 de Outubro: Dia dos Professores

Retrato em plano fechado de moça sorridente Daniely Silva -
Tempo de leitura: 3 minutos. Crônicas #reflexões

Antes mesmo de me empenhar numa Faxina Digital, já fazia frequentes balanços de papeladas que tenho: o que deve ser descartado e o que será arquivado. A última foi a mais dramática, na qual removi duas pilhas de 1 metro a serem deixadas na coleta seletiva da terça-feira.

Joguei fora a maioria dos cadernos, avaliações e atividades que tive na educação básica. Deixei apenas algumas amostras mais representativas. O ponto é que, numa quantidade excessiva, o que é importante some — o mesmo princípio que passei a usar com meus arquivos digitais.

Um dos papeis encontrados eu nunca jogaria fora. Foi uma surpresa achar uma ficha de leitura feita na 7ª série. Foi para a disciplina do professor Marco Aurélio — saudoso! Sua letra dizia um “Muito bom”, mas minha surpresa foi constatar que realmente estava. Tomei-a por base para retomar o hábito de fazer fichas de leitura, no que até pouco tempo atrás me limitava às citações.

Essa atividade, à época, gerou um rebuliço pelo custo das fichas (que deviam custar algo em torno de 20 centavos). Embora a escola fosse periférica, não havia muita gente em situação de vulnerabilidade. Em todo caso, o professor se dispôs a pagar do seu bolso a quem precisasse — gesto bonito, mas sacerdotal demais para um professor.

Para a atividade, lera um livro do qual me lembro até hoje, uma ficção científica no estilo de Frankenstein de Mary Shelley: As Múltiplas Vidas do Dr. Gaspar, de Sinval Medina.

É curioso pensar como um professor pode ser marcante na nossa formação. No ensino fundamental, foram só dois de língua portuguesa; o outra era também ótimo, mas não como Marco Aurélio. Com nome do estóico imperador filósofo, foi esse o nome do professor que marcou a minha memória e, inclusive, ministrou o Projeto de Memórias, na 5ª série. Anos depois, quando já estava na 8ª, ele se surpreendeu com minha memória: eu havia comentado sobre uma crônica apresentada, em que o escritor relembrava a infância numa vila com casas de parede cor-de-rosa. Infelizmente, não consigo lembrar o autor ou a crônica, e tampouco o professor se lembrou, depois de tantos anos.

Marco Aurélio não foi o único a causar impacto. Márcia Vansan, com as melhores aulas de Biologia e seus textos ditados, foi outra. Alexandre Rapussi, com a História lecionada aos gritos, foi mais um; ele dizia: “daqui a 20 anos, quando você vir uma pessoa gritando, você vai se lembrar de mim, porque você associou o grito à minha pessoa” (de fato!). Houve também Maria Ivone, com quem hoje compartilho a formação em Geografia, quem nos proporcionou a maravilhosa experiência de conhecer o câmpus da Universidade de São Paulo através do seu projeto de Migrações, quebrando fortes barreiras invisíveis.

Se os professores do Fundamental foram tão marcantes, os do Médio foram poucos. Trata-se, não obstante, de uma fase mais caótica da vida, sem todo o aspecto de descoberta anterior. Ainda assim, houve três que valem a menção: o grande professor Dnossypervicks Shwartzer de Almeida, alter ego de Marcos Maurício Autran (sim, sobrinho de Paulo Autran), com suas memoráveis palestras sobre História da Arte, além de Adenezile, a Ziza, e Almir, os geógrafos que se completavam com as geografias Física e Humana. Apesar da excelência de uma escola técnica de tradição, houve muitos mestres medíocres ou ruins, além dos bons que não soubemos valorizar à época.

Professores são humanos, não sacerdotes (que, aliás, são também humanos!). Como professora não praticante, entendo bem esse lado. Entretanto, nossa profissão tem impacto direto na vida de centenas de pessoas, como simples exercícios mostraram através da minha experiência.

Escrito aos 26 de abril de 2026.