1 ano com Dvorak e reflexão sobre sistemas racionais
Daniely Silva -
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Crônicas
#reflexões

Faz quase um ano que comecei a usar Dvorak. Lembro-me que tinha acabado de sair de férias e a viagem interrompeu o fluxo de aprendizado; àquela altura, escolhera o curso de Justin Chang para aprender o novo teclado.
Recapitulando, o teclado Dvorak foi patenteado em 1936 pelo psicólogo August Dvorak (primo do compositor tcheco Antonín Dvořák). A proposta era um leiaute racional que, ao reduzir os movimentos dos dedos, aliviaria a fadiga e facilitaria o aprendizado. Boa parte das palavras em língua inglesa podem ser escritas sem tirar os dedos da fileira de teclas principal. O padrão dominante, Qwerty, teve apenas a lógica de afastar as teclas das quais os tipos se enroscavam na máquina de escrever.
Entrei de férias novamente e revivo esses momentos ao retreinar o dito teclado eficiente. Um ano depois, ainda embaralho as vogais, principalmente ao trocar o O e o E sem perceber. Curioso, já que são justamente as vogais que destacam o Dvorak por sua disposição eficiente. Também embaralho as consoantes, mas percebo na hora, a tempo de corrigir.
Em Quebrando a Cabeça com Dvorak, deixei ao final a dúvida se aprender esse teclado tiraria a minha habilidade no Qwerty. A resposta é que não atrapalhou. Tomando o cuidado de não estabelecer uma falsa correlação, parece até que melhorou! Em julho de 2025, eu registrei que a minha velocidade era de 40 palavras por minuto com Dvorak e 74 com Qwerty. Em maio de 2026, cheguei a cerca de 60 e 90, respectivamente. Em todo caso, fiz o curso de digitação quando tinha 8 anos de idade, no antigo Telecentro, portanto, acho que o Qwerty está enraizado no meu cérebro o suficiente para que não o esqueça nem se eu quiser.
Os atalhos no teclado são um ponto de desvantagem. Não podemos culpar August Dvorak por isso, já que o leiaute não foi pensado para atalhos, assim como estes não foram pensados para ele ― afinal, sequer existiam computadores pessoais à época. Isso não tem sido um problema para mim, porque me acostumei facilmente à disposição das combinações. Usando duas mãos, funcionam muito bem no Dvorak, o problema é quando precisamos usá-los simultaneamente ao mouse, aí complica. Doravante, além de ser fácil alternar entre um e outro, existem plugins que adaptam os atalhos para que fiquem no Dvorak na mesma posição que têm no Qwerty.
Outro nó que a minha cabeça dá é quando preciso escrever em outros idiomas e usar os caracteres especiais do castelhano (ñ, ¿ e ¡) e do Esperanto (ĉ, ĝ, ĥ, ĵ, ŝ e ŭ). Ainda preciso trabalhar a elasticidade da cabeça para que ela não embaralhe tudo. Deve ser muita coisa para vários campos do cérebro ao mesmo tempo — daria um bom tema de pesquisa em neurociência, sem dúvida! Se bem que, enquanto revisava o texto, tive a epifania de que basta usar as teclas mortas para inserir esses diacríticos, o que dispensa alternar os leiautes.
Esteve fora de cogitação migrar 100% para o Dvorak. Não quero desaprender o leiaute tradicional, pois ainda o uso no trabalho, na faculdade e na minha Olivetti Lettera 22. Independente da dificuldade em digitar, todo texto precisa ser revisado mais de uma vez, o que me mostra que devo dedicar mais atenção a essa etapa essencial da escrita.
Apesar dos atritos, o estranhamento entre as trocas de leiaute passou. No começo, era um nó na cabeça, parecia se assemelhar aos sintomas de uma lesão cerebral: nos dois teclados, eu tentava escrever e meus dedos se recusavam, tudo se embaralhava numa mistura caótica dos dois padrões.
Mais de uma vez, pensei em deixar de usar Dvorak. É um trabalho enorme para um resultado modesto. Pergunto-me o porquê de continuar e acho que a resposta é simples: porque gostei da ideia.
É controversa a eficácia do teclado, justamente por ser difícil testá-la, dados os vieses inerentes a esse tipo de pesquisa. O estudo de Pieter Buzing (2003)1, da Universidade de Vrije, aponta, no quesito da velocidade, uma eficiência de 4 a 5% acima do Qwerty. O experimento com 15 voluntários de Cho Hanggjun (2012)2, da Universidade Nacional de Seul, chegou a uma velocidade 5,25% superior. O conforto é mais difícil de ser medido, em parte por ser subjetivo e noutra porque os traumas por esforço repetitivo acontecem a longo prazo.
Em 2005, enquanto co-participava da adaptação do Dvorak ao português e criava o Nativo, o desenvolvedor Ari Caldeira se movimentou em busca de dados concretos sobre a eficiência do Dvorak. É o que ele relata numa discussão no extinto fórum de Nando Florestan:
Acabei de chegar da PUC, onde falei com o Prof. José Eduardo Martinez, e ele topou elaborar um protocolo para um estudo científico do BR-Nativo! Não achou bobagem nem nada, quando ele viu o quadro comparativo dos leiautes, com as estatísticas, falou que esse estudo pode parar até em publicações médicas e científicas internacionais.
[…]
Também estou em contato com o Dr. Roberto Carlos Ruiz, especialista em medicina do trabalho, e com o Dr. Airton Marinho [da Silva], ergonomista e auditor do Ministério do Trabalho em Belo Horizonte, e eles têm me abastecido com informações sobre o INSS, Ministério da Trabalho, etc, e com o endereço de pelo menos uma associação de portadores de LER, aqui do estado de SP, não me lembro a cidade agora. O Dr. Airton, que também é professor, inclusive já se propôs a divulgar o assunto entre os seus alunos. 3
Apesar da promessa, visitei o currículo Lattes da Dr. Roberto e nestes 20 anos ele não esteve envolvido em nenhuma pesquisa a respeito de leiautes de teclados.
Diante da lacuna sobre a eficiência, sou obrigada a dizer que nem tudo é sobre produtividade: ideias e signos também importam. Posso comparar o Dvorak a outro padrão racional, não muito distante na linha do tempo: o Esperanto, a língua planejada do Dr. Zamenhof; a língua foi publicada em 1887 e o teclado patenteado em 1936. Ambos propõem uma solução para um problema. Luiz Lázaro Zamenhof propunha a língua neutra como alternativa à desigualdade promovida pela imposição de um idioma por países dominantes; August Dvorak propôs um leiaute eficiente contra um outro irracional, cansativo e difícil de aprender.
Quando li que o Dvorak tem um ritmo próprio, pareceu-me uma ideia de Chirico. Então, resolvi filmar e comparar a digitação. No Qwerty, os dedos dançam desordenadamente por todas as direções, como tentáculos com vida própria; isso faz sentido se pensarmos que a disposição das teclas é aleatória, apenas afastada para que os tipos das máquinas de escrever não se enroscassem — é espontâneo como as línguas naturais. O Dvorak tem um ritmo linear, previsível como o falar regular de uma língua planejada feito o Esperanto.
É muito difícil testar uma proposta alternativa e racional, justamente por não ter sido largamente adotada. A escolha de uma alternativa sempre envolve um novo padrão que prevalece sobre outras propostas; a exemplo, alternativamente ao Dvorak, há o Colemark e o Nativo, que se propõem ainda mais racionais, ao passo que ao Esperanto há o Ido e a Interlingua. Portanto, escolher uma alternativa racional é também uma decisão emocional, que pode envolver a coesão, a disponibilidade e a narrativa contada pela proposta.
Padrões são mais duros de se quebrar que uma parede de concreto. Mudar é caro, envolve alterar cadeias produtivas, currículos escolares e a cabeça de milhões de pessoas. Os americanos até hoje não conseguiram se libertar do apego à tradição de usar o sistema imperial de medidas, mesmo após enfrentarem até acidentes aeroespaciais devido a conflitos entre o seu sistema e o métrico internacional. Outro exemplo de padrão enraizado é o nosso calendário Calendário Gregoriano; baseado na Era Cristã, para além de um centralismo na cultura Ocidental, tem como efeito que eventos importantes da História estejam em contraintuitivas datas negativas. Apesar disso, ninguém parece muito disposto a substituí-lo por propostas como a do Calendário Holoceno, sugerido pelo geólogo ítalo-americano Cesare Emiliani em 1993, na qual o ano 0 deslocar-se-ia para 10 mil antes de Cristo.
Não tem como saber se um sistema alternativo funciona se não o testarmos e dele nos apropriarmos. Se nos apegamos irracionalmente a velhos padrões cristalizados, vamos seguir vivendo, como cantou Belchior, como nossos pais.
BUZING, Pieter C. Comparing Different Keyboard Layouts: Aspects of QWERTY, DVORAK and alphabetical keyboards. Amsterdam: Universidade de Vrije–Departamento de Inteligência Artificial, 2003. Disponível em: < https://www.researchgate.net/profile/Pieter-Buzing/publication/252214871_Comparing_Different_Keyboard_Layouts_Aspects_of_QWERTY_DVORAK_and_alphabetical_keyboards/links/60c3123c4585157774c7fd96/Comparing-Different-Keyboard-Layouts-Aspects-of-QWERTY-DVORAK-and-alphabetical-keyboards.pdf >. Acesso: 25 maio 2026. ↩︎
CHO, Hanggjun. Comparing QWERTY and Dvorak Keyboard Speed: a Pilot Study. Seul: Universidade Nacional de Seul–Departamento de Engenharia Elétrica e Ciência da Computação, 2014. Disponível em: < https://s-space.snu.ac.kr/handle/10371/123098?mode=simple >. Acesso: 26 maio 2026. ↩︎
CALDEIRA, Ari. Ótimas novidades! Sorocaba: Fórum Nando Florestan, 14 jul. 2005. Disponível em: < http://web.archive.org/web/20060528165641if_/http://oui.com.br/n/forum_viewtopic.php?2.117 >. Acesso: 25 maio 2026. ↩︎
