São Paulo à luz de velas e mudanças climáticas
Daniely Silva -
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Crônicas

A terra estava sem forma e vazia; as trevas cobriam o abismo […]. Deus disse: “Faça-se a luz!”. E a luz foi feita. Deus viu que a luz era boa, e separou a luz das trevas. (Gênesis 1:3-4)
São Paulo é uma cidade romântica: todos jantaram à luz de velas. O vendaval do 22 de setembro, Dia do Tietê, foi avassalador. De primeira, 900 mil pessoas ficaram sem energia; depois, entre 300 e 400 mil também foram atingidas. Minha casa passou cerca de 32 horas sem luz. Outras porções do bairro ficaram no escuro até o final da semana. A Subestação Gato Preto, que serve os distritos de Perus, Anhangüera e parte do Jaraguá foi severamente atingida. A área é de difícil acesso por ser uma zona de mata.
Ao mesmo tempo em que os temporais deixam um cenário de guerra nas ruas, a estiagem também deixa suas marcas. A ANA determina que, a partir do 1º de outubro, o Sistema Integrado Cantareira entra na faixa de restrição. Atualmente, já acontece a redução da pressão da água entre as 7 da noite e as 5 da manhã — um racionamento não verbalizado (REDAÇÃO, 2025). A Arsesp também recomendou o aumento da vazão da transposição do Rio Paraíba do Sul para o Cantareira.
São Paulo tem dois grandes problemas a enfrentar em relação à crise climática: a falta d’água e os apagões decorrentes dos vendavais. Não boto as enchentes na conta, porque, embora agravadas, já são um problema crônico e antigo, dado que a cidade foi construída sobre rios e não dá pra mudá-la de lugar.
Com relação ao primeiro problema, com as chuvas cada vez mais irregulares, a metrópole convive, a cada ano, com o fantasma da falta d’água. Hoje, o nível geral dos reservatórios é de 31,7% (Sabesp, 2025). É alarmante, o menos nível desde a crise 2014-2015.
A realidade se aproxima mais a uma crise de gestão hídrica que a uma crise hídrica propriamente dita. Quem sobrevoa São Paulo em tempos de falta d’água deve ficar confuso ao ver a abundância dos reservatórios da Zona Sul da cidade.
O estado e os municípios agiram tarde em proteger esses reservatórios, o que aconteceu somente em 1989, quando a Constituição Paulista declarou a Billings como manancial, ao que se seguiu a lei específica do reservatório, em 2009. A Billings, sozinha, tem capacidade de até 1,2 trilhão de litros d’água, o que é superior ao Sistema integrado Cantareira, com 979,9 bilhões de litros — só que distribuídos em seis represas. Na Billings, a barragem Anchieta separa o Braço Rio Grande, importante sistema de abastecimento, do resto do reservatório, para que não receba as águas contaminadas.
Seu destino primordial de geração de energia negligenciou o despejo de esgoto doméstico e industrial e permitiu, por décadas, a reversão de curso das águas contaminadas do Rio Pinheiros para o reservatório. Esse bombeamento rotineiro de água passou a ser proibido com a Constituição, mas ainda ocorre em momentos de cheia.
Se potável, a Billings ofereceria água garantida: próxima à Serra do Mar, a chuva orográfica não tem padrão irregular como no Centro-Sul. Não é a realidade do Cantareira, do qual a última represa é Jaguari, na divisa com o Sul de Minas, onde estão suas cabeceiras. A região é afetado pelo regime de chuvas cada vez mais caótico do Centro-Sul do Brasil.
Ao conviver com a ansiedade periódica do risco de um apocalipse da água, sobram soluções paliativas como a transposição do Paraíba do Sul para o Cantareira e do braço Taquacetuba da Billings para a Guarapiranga. A solução, na verdade, está à mão: saneamento básico. Claro, não é da noite para o dia que se limpa uma represa ao redor de um dos distritos mais populosos do mundo — com quase 400 mil pessoas, o Grajaú é mais populoso que 98% dos municípios brasileiros (PINHONI, 2024).
Sanear leva tempo, mas vale a pena. Promessas milagrosas não faltam: em 1992, quando do lançamento do Projeto Tietê, o governador Fleury Filho (PMDB) prometeu que beberia um copo d’água do rio.
O outro assunto cheio de certezas é quando vêm os apagões decorrentes de danos às estruturas da rede elétrica por quedas de árvores ou diretamente pelos fortes ventos. Era o 22 de setembro, aniversário do Projeto Tietê, quando saí pelo bairro para procurar um lampião para iluminar minha casa em meio ao blecaute. Percorri o bairro inteiro, mas nada encontrei; num depósito, ainda havia cinco, mas uma mesma pessoa levou todos poucos antes que eu chegasse.
Os vendavais têm se tornado um fenômeno cada vez mais avassalador e frequente nos meses de Primavera. Geralmente, ocorre quando da chegada de uma frente fria após dias de onda de calor. No litoral, houve casos de ventos comparáveis a um furacão.
Nessas horas, sempre surge um culpado: a prefeitura, a concessionária e até as árvores. Na caminhada à procura do lampião, enquanto via o cenário de guerra no meu bairro, ouvi um senhor dizer que onde há fiação aérea não deve haver árvores. Se 94% da cidade tem fiação aérea, daí temos duas proposições lógicas: a cidade não pode ter árvores e todas devem ser assassinadas; senão, toda a fiação deve ser subterrânea.
É aí que as responsabilidades se embaralham e são jogadas de um lado para o outro. A Prefeitura, por meio da Secretaria do Verde e do Meio Ambiente, deve monitorar a saúde das árvores e garantir a poda ou remoção, se for o caso. Há milhões de árvores na cidade, portanto, mesmo se a gestão municipal fizesse um bom trabalho, é humanamente impossível de impedir que ocorram quedas. Elas vão acontecer e vão causar estragos; mas a manutenção da flora urbana é responsável por minimizá-los.
Cortar as árvores de todas as ruas da cidade é uma possibilidade que nem cogito, sobretudo com a ilha de calor urbana e a questão da drenagem (fatores que nem os negacionistas do aquecimento global ignoram). Condenar, sim, as árvores doentes que ofereçam riscos, mas com o seguido plantio de espécime adequado àquele ambiente.
Nestas épocas de quedas de árvores e vendavais, ressurge a preposição de enterrar toda a fiação da cidade em tempo recorde. Um serviço do tipo não é trivial e não se faz em um ano. Mesmo entre os países ricos, não é qualquer cidade que tem rede totalmente subterrânea. Para efeito de comparação, enquanto São Paulo tem 6%, o Rio de Janeiro tem 11%, Santiago 20% e Nova Iorque 86% (QUEIROZ & RIBEIRO, 2024).
Além da questão funcional, há a estética. É constrangedor ver o emaranhado de fios da Alameda Santos, rua nobre paralela à Avenida Paulista — um dos logradouros mais famosos do país. Kassab, Haddad e Dória prometeram metas ousadas de enterramento. Com base em dados de 2024, São Paulo tem cerca 43 mil quilômetros de rede elétrica, das quais 40,5 mil são aéreos e só 6%, menos de três mil quilômetros, são subterrâneos. Já houve metas de 250 quilômetros por ano, 52 e 65; em todos os casos, levaria séculos para que 100% da fiação fosse subterrânea. Para acelerar o ritmo, resta a questão principal: a conta. Com base nos dados de 2023, haveria um gasto estimado de 20 bilhões de reais só para a Região Central — não é sequer o Centro Expandido! Para a cidade inteira, a Telcomp estimava um custo de 81 bilhões de reais para aquele ano (RODRIGUES & ACAYABA, 2023).
Quem vai se dispor a pagá-la? Pontualmente, comerciantes arcam com os custos, como foi o caso da luxuosa Rua Oscar Freire, junto à requalificação do pavimento. Também foi o caso da Vila Olímpia. Noutros, a Prefeitura o faz, como o foi no caso das ruas ao redor do Largo da Batata. Só que se tratando da cidade inteira, a concessionária repassará o valor ao consumidor.
São Paulo se situa numa região relativamente protegida dos grandes extremos climáticos agravados pelas mudanças climáticas. Pelo clima de altitude e o relevo, ondas de calor serão menos catastróficas que em cidades próximas ao litoral como Buenos Aires e regiões centrais do continente, afetadas pelas brutais massas de ar seco. Graças à sua posição, também não é uma cidade afetada por furacões e grandes inundações, apesar das enchentes pontuais decorrentes de um planejamento urbano equivocado. Seus dois grandes fantasmas meteorológicos são os vendavais, ocasionados pelos choques de massas de ar, e as crises hídricas; ambos têm soluções certeiras — mas caras e demoradas.


PINHONI, Marina. Grajaú, distrito de SP, tem mais gente que 98% das cidades brasileiras; veja MAPA e consulte mais dados da população da capital paulista. São Paulo: G1, 21 mar. 2024. Disponível em: < https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2024/03/21/grajau-distrito-de-sp-tem-mais-gente-que-98percent-das-cidades-brasileiras-veja-mapa-e-consulte-mais-dados-da-populacao-da-capital-paulista.ghtml >. Acesso: 29 set. 2025.
REDAÇÃO. Sistema Cantareira vai entrar em faixa de restrição a partir de 1º outubro, após queda no nível dos reservatórios. São Paulo: G1, 24 set. 2025. Disponível em: < https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2025/09/24/sistema-cantareira-vai-entrar-em-faixa-de-restricao-a-partir-de-1o-outubro-apos-queda-no-nivel-dos-reservatorios.ghtml >. Acesso: 29 set. 2025.
RODRIGUES, Rodrigo; ACAYABA, Cíntia. Por que é importante e ao mesmo tempo tão difícil enterrar os cabos elétricos de São Paulo; são só 0,3% em uma rede de 20 mil km. São Paulo: G1, 07 nov. 2023. Disponível em: < https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2023/11/07/por-que-e-importante-e-ao-mesmo-tempo-tao-dificil-enterrar-os-cabos-eletricos-de-sao-paulo-sao-so-03percent-em-uma-rede-de-20-mil-km.ghtml >. Acesso: 29 set. 2025.
SABESP. Situação dos Mananciais. São Paulo: Sabesp, 2025. Disponível em: < https://mananciais.sabesp.com.br/Situacao >
QUEIROZ, Guilherme; RIBEIRO, Aline. Fiação subterrânea, que poderia evitar apagões, representa apenas 6% da rede na Grande São Paulo. São Paulo, O Globo: 13 out. 2024. Disponível em: < https://oglobo.globo.com/brasil/noticia/2024/10/16/fiacao-subterranea-que-poderia-evitar-apagoes-representa-apenas-6percent-da-rede-na-grande-sao-paulo.ghtml >. Acesso: 27 set. 2025.
