Daniely Silva

Revisitando os bicos-de-lacre de 2021

Retrato em plano fechado de moça sorridente Daniely Silva -
Tempo de leitura: 3 minutos. Crônicas #fotografia

Fazia uma faxina digital quando me deparei com as fotos da ninhada de pássaros bico-de-lacre que vi crescer. Era a terceira onda da pandemia da Covid-19, quando, com o recrudescimento na abertura dos serviços, voltamos a passar mais tempo em casa — o tal isolamento social.

Àquela altura, ainda morava com os meus pais e havia uma planta lanterna-chinesa que chegava à laje do primeiro andar. Já havia percebido que havia o ninho de alguma ave por ali: escutava piados e eventualmente via passar um pássaro adulto, mas suas visitas eram tão rápidas que mal podia identificá-lo. Depois de um tempo, consegui ver que havia um ninho escondido, mas não se podiam ver filhotes ou qualquer detalhe.

Uma forte tempestade seguida por um silêncio cortante dos piados nos dias que se seguiram me fez pensar que tudo havia acabado. Parece que subestimei a resiliência desses arquitetos da natureza, porque os sons voltaram e por vários dias foram meu suave despertador.

Eis que, no dia 10 de abril de 2021, abri a janela e vi cinco jovens bicos-de-lacre descobrindo o mundo! Ainda pude ver os vestígios das penas no antigo ninho. Passei boa parte daquele sábado fotografando aquelas “coisas fofas”, ao ponto de quase fritar o sensor da câmera. Novas vidas são sempre sopros de esperança, sobretudo num cenário desolador como o da pandemia.

Se caminhar é tão emocionante para uma criança humana, nem posso imaginar a sensação tida por um pássaro no seu primeiro voo, quando uma jovem ave começa a descobrir as possibilidades tridimensionais por onde pode viajar e ter um novo mundo sob suas asas.

Ter acompanhado o desenvolvimento de uma ninhada de bicos-de-lacre foi uma das experiências mais emocionantes que já tive. Os animais não humanos são dotados de sentimentos, emoções e vontades, não são meros avatares sem consciência. No seu dia a dia, os pássaros vão fazer o que têm que fazer e o que querem fazer.

Foi essa compreensão que me faltou quando ficaram um tempo sem aparecer no jardim. Eu ficara preocupada, a cada grito de uma ave de rapina nas redondezas, que tivessem sido predados.

Ledo engano, pois, na sexta-feira do dia 23 de abril, pude ver os cinco filhotes reunidos, minha euforia se comparou ao dia em que saíram do ninho.

Na minha ignorância sobre o desenvolvimento das aves, pensara que eles já seriam adultos a essa altura, após todo o tempo em que andaram sumidos. Mas seus bicos continuavam pretos, ainda não alaranjados como devem ficar na fase adulta. De qualquer modo, a cada visita, mais me encantava com seu crescimento: cada vez mais emplumados, mais gordos e mais espertos.

Pareca loucura, mas já notava até traços na personalidade de cada um. Pela primeira vez pude ver os irmãos tão próximos, pois geralmente via no máximo dois ou três interagindo entre si. Era uma manhã fria e eles possivelmente estavam se aquecendo.

Dois pássaros sobre galho: um apoia a cabeça sobre o ombro do outro.

Na foto acima, o pássaro da esquerda apoia a cabeça sobre o ombro do irmão; noutros momentos, percebi que esse comportamento tão fofo era bem freqüente vindo desse pássaro em específico. O tempo passou, mas nem tanto: eles ainda eram filhotes. E filhotes de qualquer espécie gostam de brincar e exercitar sua curiosidade.

Até brinquei dizendo que poderia dar-lhes nomes. Mas eles não precisam de nomes. Nós, na nossa arrogância humana, é que temos o hábito de personificar tudo, quando, na verdade, nossos conterrâneos planetários já são especiais o suficiente em suas naturezas sem que precisemos atribuir-lhes aspectos humanos.

Em 2 de janeiro de 2022, vi quatro dos irmãos se banhando na água acumulada na laje de um vizinho. Foi a última vez que os vi.

Reedição de textos escritos em 10 e 25 de abril de 2021, num dos auges da pandemia da Covid-19.

Pássaro canta solitário entre galhos.

Pássaro sozinho repousa sobre galho.

Pássaro se equilibra em galho vertical e encara a câmera.

Cinco pássaros de costas em galho enquanto um encara a câmera.

Cinco pássaros sobre galho.

Cinco pássaros se amontoam sobre galho.

Cinco pássaros se amontoam sobre galho.

Dois pássaros se reúnem sobre galho; ao fundo, desfocado, mais um par.