Pedro de Alcântara: o homem do coração dividido
Daniely Silva -
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Crônicas
Até relógio parado acerta mais que Bolsonaro — duas vezes ao dia. Nos 100 anos da independência, tivemos a Semana de Arte Moderna; grandes celebrações marcaram o sesquicentenário e o traslado dos restos mortais de D. Pedro para o Brasil — os milicos eram tiranos e corruptos, mas tinham estilo.
No bicentenário, vimos um capitão no posto de presidente gritar que é imbrochável — seis vezes! Ainda se sentiu no direito de desfilar o coração de D. Pedro. Mas se o próprio havia avisado: deixo o meu corpo em Lisboa, o meu coração fica no Porto e, aos brasileiros, deixo a minha relíquia mais preciosa, que é meu filho, a emanação vivente do meu ser (Pedro, 1835).
Esse era um homem de coração que não cabia no peito. Tinha-o dividido entre as mulheres, mas também entre as Coroas. Teve vida curta, mas intensa.
Napoleão já ganho filmes épicos, esse mesmo estadista que desencadeou os eventos que levaram ao Brasil cair no colo de Pedro de Alcântara. O conjunto efervesceste de um Reino do Brasil que ameaçava ser rebaixado, culminou num grito da independência longe dos olhos populares. Numa estrada na Zona Rural de São Paulo, às margens do Rio Ipiranga, chega a carta da Princesa Leopoldina intimando-o a tomar uma atitude frente às humilhações da Corte o quanto antes. Na verdade, ela tinha melhor formação palaciana que ele, a quem as autoridades em Portugal chamavam, jocosamente, “o brasileiro”.
Como resultado, o príncipe vira Imperador — como Napoleão, achou que ser chamado rei não caía bem. Ao 12 de outubro, no Campo de Santana, mesmo lugar onde o marechal derrubou a monarquia, 67 anos depois, é aclamado Imperador Constitucional e Defensor Perpétuo do Brasil. Era o aniversário de 24 anos de Pedro.
O título de Defensor Perpétuo fora dado pelo Senado da Câmara do Reino do Brasil, com a proposta de Protetor e Defensor Perpétuo do Brasil, mas a segunda parte foi recusada, já que o Brasil a si próprio se protegia.
No 1º de dezembro, vem a coroação inédita. Isso porque reis em Portugal não eram coroadas há séculos, apenas aclamados, como o fora D. João VI, no Rio de Janeiro, em 1815. Tal prático vinha desde o desaparecimento de D. Sebastião e a traumática absorção de Portugal pela Espanha filipina. Quem ia imaginar que o único Bragança a ser coroado na história o faria num império nos trópicos?
O novo país começava com um chefe de Estado com o coração dividido entre a princesa da Áustria, agora Imperatriz do Brasil, e a dona Domitila de Castro, que tornar-se-ia Marquesa de Santos. Um barraco público que envolveu o atentado fratricida da irmã a outra amante de Pedro de Alcântara, a Baronesa de Sorocaba.
Para incrementar os escândalos e provocações, o próprio título da marquesa já foi uma alfinetada, já que esta nunca pisou em Santos. O tom provocativo se direcionada aos irmãos Andrada, de família tradicional da cidade e críticos públicos do romance.
Se o coração estava dividido entre as mulheres, também o estava entre as Coroas. Após o surto autoritário durante a primeira constituinte do Brasil, a Constituição de 25 de Março de 1824 determinava que um mesmo monarca não poderia ocupar os tronos de Brasil e Portugal ao mesmo tempo. Era um golpe nos Restauradores, que desejavam um Brasil novamente unido a Portugal.
Contudo, o reconhecimento da independência brasileira por Portugal, em 1825, teve como condição o reconhecimento do título de Imperador a D. João VI (ou D. João I do Brasil?), grande partidário da união dos países. Uma salada contraditória sem tamanho, mas tudo em caráter simbólico, não é mesmo?
Esse sonho turvo de reunião de Coroas se tornou o pesadelo de D. Pedro. Com a morte de D. João VI, em 1826, novamente se instala o temor no Brasil de que os países estivessem novamente unidos, sobretudo com as atenções de D. Pedro voltadas àquele lado do Atlântico, onde reina por alguns meses como D. Pedro IV.
Aí é que vem a primeira abdicação de Pedro. Na impossibilidade de ser o chefe de Estado duplamente, abdica condicionalmente ao trono português em favor de sua filha nascida no Brasil, D.ª Maria da Glória. Casou-a com o próprio tio, seu irmão conspirador D. Miguel, na ingênua pretensão de apaziguar as disputas entre as facções constitucionalista, representada pela filha, e absolutista, representada pelo irmão.
Os seus anos seguintes não são fáceis. Com o coração dividido, foi assaltado por eventos o assassinato do jornalista liberal Libero Badaró, em São Paulo, e a Noite das Garrafadas, na Corte, num quebra-pau entre comerciantes brasileiros e seus partidários portugueses, para além do seu pensamento favorável à Abolição. A convulsão social e política forçaram a sua segunda abdicação, desta vez ao trono brasileiro. Em 7 de abril de 1831, parte à Lisboa, dizem que sem coração de acordar o filho para se despedir. Num pranto silencioso, deixa o Brasil nos braços de um menino de 4 anos.
Lá, entra num embate com as tropas absolutistas de D. Miguel, apoiado pela conspiradora rainha-mãe, D.ª Carlota Joaquina. Se no Brasil Pedro foi acusado de tirano pela criação do Poder Moderador, em Portugal encabeçou a luta de constitucionalistas contra os absolutistas, no que veio a ser a Guerra Civil Portuguesa, entre 1832 e 1834, que pôs fim ao reinado de D. Miguel e deu vitória à Constituição e ao liberalismo.
Miguel foi para o exílio e Pedro foi vitorioso, lembrado como D. Pedro IV, defensor da Constituição. Com o coração dividido e o pulmão carregado, morre de tuberculose em 1834, meses após o fim da guerra civil. Morre no mesmo lugar onde nasceu, no Palácio de Queluz, nos arredores de Lisboa. Entre o homem e o mito, foi humano.
MOTA, Carlos Guilherme (org.). 1822: Dimensões. 5ed. São Paulo: Perspectiva/Sesc, 2022.
Pedro I, Imperador do Brasil, 1798-1834. Carta posthuma de D. Pedro Duque de Bragança aos brasileiros, Remetida pelo doctor T******. Rio de Janeiro: Tipografia Fluminense, 1835. Disponível em: < https://pt.wikisource.org/wiki/Carta_posthuma_de_D._Pedro,_Duque_de_Bragan%C3%A7a_aos_Brasileiros >. Acesso: 7 set. 2025.
