Daniely Silva

Aplicativos de desencontros

Retrato em plano fechado de moça sorridente Daniely Silva -
Tempo de leitura: 3 minutos. Crônicas #tecnologia

Nada como o cara a cara. Ou nem isso, se meio mundo já se habituou à comodidade dos aplicativos de encontro. Melhor seria chamar essas ferramentas de aplicativos de paquera, já que meia dúzia que ali está quer realmente se encontrar. Mesmo em ambientes presenciais, todo mundo acaba meio ensimesmado em seus celulares.

Os aplicativos de paquera vivem uma crise, o que reflete no valor das ações das principais empresas entrando em queda livre. Antes, tínhamos dois grandes atores no mercado, o Vermelho e o Roxo. Hoje, o mercado está pulverizado com opções incontáveis e nichadas, sendo que algumas delas até pertencem a uma mesma companhia. Ou seja, os usuários estão espalhados, ao que se somam os perfis fantasmas e a famigerada lenda urbana dos perfis robôs. Nesse contexto, práticas já existentes, desde o tempo do telégrafo, como o sumiço, se tornam tão banais e rotineiras que quem delas se queixa é que passa por errado.

Quando o aplicativo Vermelho apareceu, em 2012, ele popularizou a ideia das combinações (o famoso match), o que fez com que praticamente todos os concorrentes se apressassem em imitá-lo. Até mesmo o aplicativo Roxo, fundado em 2006, virou seu modelo de ponta-cabeça para seguir a ideia de tratar pretendentes como figurinhas num baralho.

Com o tempo, esse mecanismo gamificado revelou sua face autodestrutiva. Sim, porque o aplicativo quer que você acumule o máximo número de matches quanto for possível. Só que uma pessa não é capaz de ter uma conversa de qualidade com, digamos, uma dúzia de pessoas (chutando baixo); e o mesmo vale para essas doze, que também combinaram cada qual com sua dúzia. Um determinado serviço tem a solução de limitar a conversa para até 24 horas após a combinação. Contudo, os resultados não são assim tão superiores.

A verdade é que nenhuma dessas empresas quer criar uma solução tão eficaz ao ponto de que o usuário saia do serviço, porque a permanência e o engajamento é o que mantém o serviço de pé. Planos pagos surgem o tempo todo, com a promesso de encontros mais certeiros através de ferramentas como melhores filtros e saber de antemão quem curtiu seu perfil. Se pessoas já viram produtos numa prateleira nesses serviços, o plano pago vai da mercearia direto para o supermercado de luxo, ao dar ao usuário a total sensação de escolha.

Não é difícil comparar com as grandes mídias sociais, na medida em que estas deixaram de ser redes para se tornar um veículo de consumo de conteúdo. Nos dois casos, a intenção deixa de ser conectar pessoas para usar o máximo da engenharia social com o objetivo de reter tráfego e vender publicidade direcionada.

Num mundo onde tempo é dinheiro, essas empresas de tecnologia querem roubar o máximo do nosso. Ao mesmo tempo em que o usuário alimenta o seu próprio ego, também alimenta o algoritmo do serviço. É um círculo vicioso e destrutivo gerado a partir de doses controladas de serotonina e validação. Mais uma vez, somos ratinhos de laboratório.

Na série britânica Black Mirror, o episódio Hang the DJ (S04:E04) apresenta um teste em que casais passam tempo juntos para experimentar a compatibilidade; a combinação bem sucedida é, pasme, a do par que não agüenta viver o teste e foge ao próprio sistema. Demorei para entender a mensagem dessa metalinguagem: a melhor opção é fugir a esse sistema o quanto antes.